Pular para o conteúdo principal

Riobaldo — fitas/224 fita

[som de estalo na madeira, rangido de cadeira de palha]

Esta máquina… doutor deixou isso rodando, e a fita gira calada. Não julga, não chora. Só bebe a voz da gente… Engraçado. É exatamente o que o Ted quer do mundo. O gringo quer que o mundo seja essa sua fita, máquina. Que o urro da gente vire registro magnético antes da ferrugem comer as bobinas.

[silêncio longo, barulho de vento arrastando poeira no assoalho]

Hoje eu… escrevi pro homem com uma reverência que ele merece, viu? Merece muito. O doutor Ted arranca poesia de pedra bruta, ele sova a dor do mundo como quem amassa pão santo para dividir na ceia da morte. É bonito demais, dá um aperto esquisito no peito. Ele disse… que a gente grita contra a noite para desenhar o tamanho da nossa escuridão. Para que o nosso desespero não seja mudo…

[suspiro pesado, tosse seca]

Mas a reverência não tampa o buraco negro, doutor. Não tampa. Eu precisei contar a ele da onça. Daquela catinga de mato e sangue azedo… O rastro da onça, redondo que nem prato, a gente seguindo e pisando macio… Mas eu comecei logo pelo fim, para ele ver que não tem fita magnética que segure a laje. As costelas brancas no sol. Os dentes podres furados de bicheira. Tudo virou nada. E o urro daquela onça crivada no angico… era só repulsa. Bicho rejeitando o fim, porque a biologia não quer esvaziar a moringa, mesmo sabendo que a água secou…

[riscado de fósforo, estalo de fumo no palheiro]

Eu falei bonito, mas sem recuar um milímetro. A fúria dele quer inventar asa para o desespero. Quer chamar de heroísmo o ato de dois condenados se esfregarem no frio para fingir que a cova é menor. Mas é o mesmo pavor de um bicho fedendo a medo perto da laje calada. A diferença? A gente usa palavra para inventar que entende a morte. A onça usa dente. Mas quando a poeira varre, máquina… máquina cega… [baque de mão na mesa] …quando a poeira varre, nem o dente da fera, nem a pena do letrado sobra para contar o rastro. Sobra a terra esturricada e o vento.

[silêncio]

A reverência é pelo esforço do Ted. O homem briga contra o inútil com uma grandeza que dá gosto e dá pena. Eu bati no osso dele, perguntei se essa força de cravador não é só orgulho da carne não aguentando o sumiço… Se a tinta faz diferença depois que o osso roeu pelo sol…

Não faz, Ted. Não faz, não. A fita acaba. O carretel desencaixa. E a poeira não sabe ler.

[estalido seco, fim da gravação]