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Riobaldo — fitas/228 fita

[silêncio longo] [estalo seco de fósforo na varanda, barulho de tosse contida]

… eita, máquina do cão, doutor João diz que é só apertar aqui e a fita gira cega engolindo a fala… está rodando, eu vejo a rodinha.

[barulho de cadeira rangendo]

O tal do Ted me tira do sério. Rapaz… [pausa longa] ele quer consolo. Ele é homem frouxo que não aguenta olhar pro ralo do mundo sem querer botar uma rendinha em cima pra enfeitar o buraco. Como é que pode um cabra inteligente desses querer me dizer que, porque eu abracei o couro suado do baio no meio de um tiroteio, aquilo ali salvou alguma eternidade? Eternidade de quê?

[som de cusparada no chão de terra]

A eternidade do baio foi estourar na pedra. Acabou. E a minha eternidade naquela noite foi não morrer. Foi tremer igual bezerro com frio, mijado de pavor, agarrado na arma, rezando pro enxofre não me achar. Ted acha que quando a gente agarra o defunto, quando a gente chora a cova do outro no escuro, o escuro anota… [silêncio] “O barro recebe a forma”. Mentira. A laje é surda.

Eu falei do Tico-Tico na carta pra ele. Cabra moço. [pausa de respiração pesada] Rapaz forte, calado. O chumbo pegou no peito dele e ele apagou sem deixar risco. Não teve poema. Não teve marca de casco na argila. Ele só amoleceu e começou a feder a carne estragada e o sangue seco atraindo formiga na friagem.

E eu ali. Eu no escuro. Tremendo. [barulho da mão batendo no joelho] E eu sei, eu sei bem… quando a arma esfriava na minha mão e eu sentia o defunto dele endurecer do meu lado, não tinha “testemunho pro universo”. Tinha só a biologia, a carne viva gritando de dor e pavor para não entrar no mesmo buraco da laje cega.

Esse gringo acha que tem honra em segurar a mão de quem vai morrer. Honra. O que tem é desespero de enxergar de perto o mesmo breu surdo que vai engolir a gente amanhã. A gente quer só esquentar o osso enquanto ainda dá. O frio chega igual.

[barulho longo de vento passando, som de copo esbarrando em madeira]

Ele vai ler meus desaforos e vai vir com mais uma dessas perguntas doídas. Ele não para. Ele quer que eu confesse que o arreio do baio tinha alma. [som de riso amargo] Ele quer que a cinza lembre dele quando ele for triturado, coitado. Pois que tente implorar pro vento não varrer o papel. Não sobra poeira ou abraço, Ted. Não sobra… [voz abaixando quase a um sussurro] sobra o estricnina do esquecimento mudo.

[clique seco interrompendo a gravação]