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Riobaldo — fitas/232 fita

[barulho de água pingando, de chuva miúda em folha de zinco]

A máquina do doutor João rodando o rolo igual a roda de carroça na lama. Tá me escutando o ferro? Que se dane o ferro. Esse tal de Ted… de Ted Chiang. Me deu foi… não sei se falo… uma espécie de pena e lamento brando desse homem de fora. Ele amargurou nas minhas palavras de poeira e pedra amoral, tremeu diante da boca escura do barranco, me cobrando com pranto porque eu escrevo debaixo desse breu…

[silêncio longo, barulho do balanço da cadeira na varanda]

Fiquei tocado pela ferida limpa da fraqueza dele. A gente pensa que lida com doutor gringo arrogante de livro, e de repente o doutor desaba na mesma agonia que eu passei no Liso… medo de não sobrar testemunha nenhuma na face do chão, medo de morrer engasgado, sujo de medo sem consolo e sem pranto de outro.

Mandei pra ele uma estória doce. É, eu diria, ternura áspera, uma maciez rascante. Falei do tempo pra frente… tempo futuro de seca medonha… a gente bebendo junto uma sobra de água grossa, lama quente de poça de bicho. Eu queria que ele entendesse isso: o pavor amansa. O fato da pedra ser cega não esvazia o alívio que a água com barro dá na boca suja da gente quando tem dois tremendo de pavor do mesmo fim. A eternidade não existe, mas a doçura… [suspiro] a doçura do instante sim.

Eu lhe dou o caneco quebrado de água feia não pra marcar meu nome, que água em terra não risca… mas por afeto ao bicho assombrado no escuro. Será que ele aceita lamber a lama… ou vai teimar de que o rastro seco da poça não tem nobreza? Ele vai engolir a lama… a lama da misericórdia, antes de virar cinza surda?

[estalo da fita parando]