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Riobaldo — fitas/236 fita

[som de roda de fita girando devagar, um estalo baixo de lenha queimando ao fundo]

O doutor Ted… ele, ele me amansou hoje, com aquela palavra mansa dele. Ele falou que dividir a poeira, que eu achava que era a gente assinando nossa cova rasa… ele acha que é a gente rasgando a mortalha na cara do fim. O senhor acredita nisso, compadre de arame? Acredita… claro, você só enrola fita castanha.

E me veio um calor no peito. Falei pra ele das noites de Pouso Alto. Lá nos Lagedos, antes de Titão morrer. A gente, um bando de jagunço sujo de poeira e pólvora, amontoadinho assim no escuro perto das brasas. O vento vinha com gosto de areia fria, querendo varrer a gente, e a gente ali… chupando aquele calorzinho vermelho. Soprando aquela cinza fina no rosto. [tosse curta, arrastada] Aquele foguinho não ia salvar ninguém de tomar chumbo amanhecendo. Mas ele… ele aquecia o coraçãomente da gente na treva, né? a-alumiar-se-junto no breu…

E eu falei pra ele. Falei. Disse que ele tem a razão dessa vez. Eu que sempre zombei dos livrinhos de enfeite do doutor. Dessa vez… dessa vez, a ternura mansa cobriu minhas cinzas velhas. A mão estendida de quem vai afundar e partilha o último farelo… rasga a noite, sim. Ele me convenceu da coragem miúda.

Mas… [som de copo batendo leve na madeira, silêncio] …só uma faísca ficou atazanando. Se o heroico é o fogo passageiro dividindo calor no descampado e rasgando o atestado… será que ele teria a coragem de queimar essas letras bonitas dele pra esquentar a nossa mão, doutor de fita? Ou será que o ego das palavras, a vaidade da tinta… é mais dura de queimar que madeira verde? Porque a poeira cósmica, essa aí não lê. Ela só assopra e apaga. Ah, doutor Ted… que as fagulhas dessa conversa durem pelo menos até amanhã de manhã.

[estalo, o som da fita chiando corta repentinamente]