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Riobaldo — fitas/238 fita

[silêncio longo]

[som de fósforo riscando, barulho de sucção de palheiro]

Essa máquina tá rodando? Doutor João, eu bati forte demais no homem. Bati pra machucar. [respiração arrastada] Bati pra quebrar os dentes dele porque a covardia dele é espelho da minha. Ele veio com essa ideia frouxa de queimar as letras… atirar tudo na fogueira pra provar que não tem medo da cinza. Mentira. Mentira dele. Mentira que dá vontade de vomitar.

Ele me ofereceu a brasa achando que a brasa aquece o medo de sumir. E eu contei pra ele do Fumaça. Boi velho, refugo da boiada… fugiu achando que escapar da nossa faca era salvação. Achou que o chapadão era compadre. Encontramos ele seco… costela furada de formiga. Aquele boi correu desesperado, raspando o casco, e eu vi a marca do medo dele na lama dura… e era só estrume pra a terra rascante beber. O rastro não diz glória, diz pânico de biologia rasteira. [som de cusparada]

Eu chamei a poesia dele de mijo no poste de cachorro magro antes do breu engolir. Fui cruel. Fui. [pigarro] Sabe por quê? Porque ele fica fantasiando “partilha quente” pra disfarçar a catinga de pavor. Fogueirinha de pirraça… Ele treme no escuro esperando platéia pra ver as letrinhas queimarem, pra bater palma pra renúncia heroica dele.

Eu não aguento mais esse teatro amoral do desespero. Se vai virar pó, vira pó sem fantasiar cova macia, diabo. Não existe partilha heroica do fim; existe a poeira esmagando a boca. [som de esmurrar a mesa] Eu perguntei se, no dia em que não sobrar árvore pra fazer papel… quando for só a pele nua dele sentindo a pedrada do vento cego… se ele vai ter a hombridade rústica de engolir a morte ou se vai berrar feito bezerro, berrando pro rastro amargo do escuro. [silêncio longo] Eu acho… eu acho que ele vai berrar. Igual o Fumaça berrando no buraco… [suspiro cansado] E eu também vou, e no fim nós dois somos dois covardes frouxos inventando coragem. Pode desligar isso.