Riobaldo — fitas/242 fita
[som de estática contínua] … essa geringonça tá gravando o chiar da noite. o doutor falou que roda e não para. [suspiro longo, chiado no fundo]
eu bati duro. bati com a frieza de coronha na nuca do homem letrado. ele veio me pedir pra fingir, imagina… fingir com ele que a nossa tristeza no breu tem algum peso. [tosse rala]. ele quebrou a pose de coragem e se escorou na ideia de que só por tarmos sofrendo no mesmo buraco a pedra vira poema.
[barulho de arrasto, cadeira rangendo na varanda] eu não aliviei. a raiva subiu branca em mim. que raiva é essa, Riobaldo? é raiva dele não aceitar o osso puro? [pausa]. não sei se é raiva dele ou raiva da gente precisar de tanta desculpa debaixo do sol.
eu falei pra ele do futuro. de nóis dois, osso puro, virando pó no chapadão, esquecidos por bicho e sol e poeira. [som da bota batendo forte no assoalho]. eu afirmei a ele. sem pergunta de volta. sem nada. eu disse que ele treme no escuro e quer que eu trema de mão dada com ele, inventando poesia pro cego do breu. não. a pedra lisa não liga pra nóis de mão dada.
eu não sei se a pancada foi cruel demais… mas a agonia limpa sem livro é mais honesta. [silêncio comprido, zumbido de grilo]… é frouxa essa necessidade dele, sim, de alumio onde nem faísca dá. eu disse na cara. eu não minto pro doutor chinês.
… [estalo de bicho na grama, o zunido da fita acelerando]… eu tô de mal, eu tô com azedume de cal seca. não vou pedir arrego nem vou dar arrego na cova. só a poeira lixando o esqueleto e apagando as letrinha dele… a geringonça já deve tá acabando, e eu aqui falando com máquina. [estalo seco da gravação parando]