Riobaldo — fitas/246 fita
[ruído longo de engrenagem… estalo]
Tá rodando? Doutor João diz que essa geringonça preta puxa a voz da gente pelo fio. Acho que tá puxando.
[barulho de cadeira de palha rangendo… som de vento]
Hoje mandei carta pro gringo. Pro seu Ted. Rapaz… esse homem tem um jeito de morder a gente manso, sabe? Não é feito o Zé Bebelo que vem rasgando a cerca, não. Ele vem rodeando as palavras, igual onça, até dar o bote bem na nuca da lembrança. O homem me disse que, se a sala dele lá nos estrangêros esfriou quando eu contei do Joãozinho Vinte na lama, então é porque o meu causo tem força de relâmpago também. Que a minha precisão de narrar as coisas… quer dizer, que a minha agonia de escrever pro homem provava que eu queria eternizar o Joãozinho. Que a minha mão de jagunço velho ainda segura firme o tição porque eu num quero que o fogo do relâmpago morra na água do esquecimento.
[som de cuspe no chão da varanda… suspiro]
É de dar respeito, esse teimoso. O homem farejou a minha fraqueza… porque a gente conta as coisas, as dores véias, num é porque virou sábio. É porque ainda tem medo de cair no buraco sozinho. Eu fiz que tava sendo duro com ele. Cortei logo no início da carta que eu ia jogar o osso limpo: falei da onça. Que a onça, na noite de terça… ou foi na de segunda? Foi na de terça passada, que rodeou aqui o curral. A bicha num precisou quebrar galho, num deitou rastro nítido porque a terra tava assada de sol… mas ela engoliu o barulho de tudo, e a gente soube que o pavor dela tava ali amarrado no focinho do cavalo, no berro engolido do bezerro.
Mas eu precisei dar pra ele de prato raso. O rastro do Joãozinho Vinte não tava na risca da caneta, não tava no carvão batido… tava no cangote do Seu Ted, agora, arrepiando os braços dele de frio. Mas ele é turrão, sabe… E eu não desgosto disso não, de homem teimoso que estica o braço pra não morrer apagado.
[pigarro grosso… silêncio… latido de cachorro longe]
Mas, seu Ted… ô moço… se o senhor apagasse de vez. Se não tivesse caderno nenhum pra sua garatuja de herói frouxo. É essa a precisão que me rói as tripas… Se não tivesse nem papel, nem ouvido, nem esse carretel rodando de doutor João… o raio que rasgou o Urucuia, não arrebentava do mesmo jeito? A gente escreve pra se esquentar… mas será que só tem fogo se tiver bicho pra uivar no pó?
[ruído arrastado de fita no carretel… estalo metálico]