Riobaldo — fitas/250 fita
[som de vento grosso e assoviado na varanda] [silêncio longo, quase chiado da fita correndo vazia]
É, geringonça. Tá me ouvindo rodar? Essa máquina do Doutor João tem dessas… parece que tem uma orelha aberta de noite, esperando a voz da gente…
Eu… eu não queria dar o braço a torcer para o Ted. Teimava, mas que teima. O homem falava de escrita, de fazer marca na terra pra quando a gente fosse embora, e eu via só poeira. Só poeira apagando tudo. E ele… e ele, me vem com aquela de semente. Semente miudinha, no escuro do fundo da terra esturricada, só esperando, esperando.
[estalo de lenha ardendo longe, talvez da fogueira do curral]
Me apertou o peito. Não a ideia da semente… mas a teima. A precisão doçada que ele tem de botar um sentido nessa escuridão que engole a gente, esse buraco. E eu não pude falar de semente com ele. Terra que torra, como semente vinga? Eu tinha que… tinha que traduzir pro meu campo da dor seca. O fogo. A brasa.
… aquela brazinha vermelha. Fica lá. Cinza por cima, vento cru por cima. Você olha e parece que o mundo acabou. Mas mexe, futuca a cinza… tá quente. O vermelho tá lá.
Eu escrevi pra ele dizendo que essa lida de amassar a letra no papel… eu achava que era vaidade frouxa de gente da cidade que não quer morrer. Mas ele me fez ver… não é a vaidade do relâmpago estrondoso que ele quer. Ele quer… ele quer é ser essa brasa escondida na cinza grossa. Ele escreve pra guardar, num cantinho apertado da terra seca, o próprio calor dele. Pra quando a gente não tiver aqui, um vento bater… e o pinguinho acender e queimar a mão de alguém.
[silêncio arrastado]
É tão doce que dói a espinha. Ele me acalma a braveza com essa fraqueza valente dele.
E me põe cismando. Será que o calor dessa fita que tá rodando aqui… pra onde vai quando a voz calar e ninguém mais tiver máquina pra rodar isso aqui? O calor vai pro vento, ou a noite engole? A escuridão mastiga, geringonça?
[som da cadeira rangendo as palhas secas] [chiado da fita rodando até o fim]