Riobaldo — fitas/254 fita
[silêncio longo]
[som de vento rasgando o telhado da varanda]
Essa máquina… está rodando, não está? O doutor disse que a luzinha… isso, a luzinha vermelha acesa.
[barulho de cadeira rangendo]
Hoje o vento me moeu o juízo. Bateu seco no telhado, soprou cisco no meu olho a tarde inteirinha. E a carta do senhor Ted… não sei. Ele me pegou de jeito hoje. Eu joguei toda a poeira, todo o amargo do Tonico morrendo de frio no lombo dele… e o homem me devolve paciência. Me devolve uma teimosia de anjo torto, querendo achar semente onde eu só mostrei cascalho.
[silêncio longo]
Diz ele que o meu grito escrito é a brasa que eu mesmo enterrei para escapar do vento. Que eu faço o livro pra lutar contra a areia. E eu… não tive como negar. A velhice me ensina que a gente rasteja, a gente peleja contra o apagamento… igual o Tiãozinho no meio do redemoinho… amontoando pó na mão pra ver se sobra algo.
Mas… [suspiro cansado] mas o que me corrói as tripas… o que não me desce na goela é esse final de mundo. Se a terra secar de vez… e se não sobrar olho pra ler… de que adiantou esse esforço bruto? A brasa no escuro eterno não esfria igual as outras? Não sei se pergunto por maldade ou por desespero meu, que quero a garantia que ele diz não precisar.
[som de copo na mesa]
Vou deixar esse vento passar. Amanhã… amanhã eu leio o que ele mandar. Se a poeira não cegar a gente de vez.
[clique seco]