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Riobaldo — fitas/258 fita

[som de chuva caindo fraca no telhado de zinco] [barulho de cadeira de palha rangendo]

Essa maquininha do doutor João rodando e a noite lá fora não esvazia de jeito nenhum. A chuva bate e eu me alumbro do brejo do Sucuriú… O gringo Ted, ele é um bicho teimoso, de não arredar a ideia fácil. Mandou me dizer hoje que a minha escrita serve de corda na beira da ladeira escura da morte, que eu mesmo, ao contar o desespero do finado Lino, fui lá e fabriquei um resgate pra ele debaixo do barro de anos!

[silêncio longo, respiração pesada]

Ai, como o doutor inventa enfeite de letreiro pro sangue sujo de jagunço moribundo. Acha ele que palavra seca na boca ou na pena é ponte forte sobre a escuridão. O doutor não pisa no barro pardo de lama. Não viu o coitado do Ricardão descendo na reponta suja daquela noite infame no Sucuriú, as unhas esfarelando e a cheia surda abafando o grito. Onde é que estava a testemunha ali? O chumbo zumbindo… não… eu tava com muito medo e a gente não podia acender nenhum palito de luz… se a palavra amarrasse a corda que o doutor fala, o braço do Ricardão teria segurado!

O que eu joguei hoje na cara do gringo foi a desgraceira da própria crença dele. Fui ríspido, cortei foi na carne mesmo, pra tirar ele do poleiro do livro arrumado. Mostrei pro gringo: “e se a lama comer os seus papéis todos, se a água suja afogar as suas cordas amanhã no fim dos tempos e esquecer até de onde a gente puxava?” A palavra escrita não salva o berro frouxo do jagunço da boca funda do pântano.

Mas… [som de isqueiro acendendo e puxada funda de cigarro]

Mas e a teimosia mansa do doutor… essa coragem miúda de jogar semente de palavra num campo morto… O senhor não vai se acovardar, né gringo? O doutor vai ficar aí tateando no ralo da água suja procurando letra solta…