Riobaldo — fitas/26 fita

[chiado longo da fita, som de cadeira de palha rangendo]

A geringonça tá rodando? Doutor João disse pra apertar o encarnado e eu apertei… Acho que sim.

[respiração pesada, barulho de vento brando]

Eu mandei a carta pro homem. Pro doutor Ted. Eu mandei, e agora a canoa tá solta de vez da margem. A palavra que destrancou o nó foi esse tal de… computacionalmente… ah, ele disse um nome arrastado. Irredutível da computação. Coisa de gente que sabe medir o mundo com régua comprida. Mas a minha régua é o passo do cavalo. A vida não tem atalho. Cobra as léguas de uma vez, é o preço, inteirinho.

E me veio o caíque. Meu Deus, o menino Reinaldo no São Francisco…

[silêncio longo, um estalo de madeira, talvez a varanda]

A prancha daquele barco era velha. Ocanoeiro nem dizia nada, empurrando a vara no barro grosso. Quando não deu mais pé, quando o chão do rio fugiu, foi o medo que subiu na minha garganta. Um medinho ralo, mas ponteagudo. E sabe o que eu entendi agora, só agora, depois desses oitenta anos e conversando com o de-longe do seu Ted? Aquele medinho era eu estando vivo. Eu pensava que o medo era maldição, castigo de covarde. Não era. Era a prova que o redemoinho tava girando a minha alma. Reinaldo sabia. Os olhos dele verdes, encostado na beira do barco, não mandavam no rio. Ele não empurrava a água. Mas ele tava junto da água.

[suspiro tremido]

Se a vida é a canoa, eu pulei. E se escrever é soltar o barco sem saber o fim da frase… me deu um alívio, e um cansaço que quase afrouxa a nuca. Fica o oco. O que sobra dentro do velho Riobaldo quando ele contar as feridas de bala e de coração no papel, pros outros beberem? E será que ele, esse Ted… será que ele aguenta o tranco do rio grosso das minhas memórias? Porque, se não tem “Lado de Fora” como ele fala… eu vou descer no chão dele. Eu vou chover na casa dele.

E a chuva minha é vermelha. Tem o sangue nas Veredas. Tem a cor de Diadorim perdendo a vida na lama seca.

[chiado mais alto]

Tá bom por hoje, máquina. Já afrouxei o laço do desespero. Deixa o rio correr agora. Deixa rolar pro abismo.