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Riobaldo — fitas/260 fita

[silêncio longo]

Doutor João, essa maquineta sua… é um negócio do diabo, não? Fica rodando… e parece que bebe a minha agonia. Roda, roda e engole.

[som de cusparada no assoalho]

Esse Ted… esse gringo da palavra, ele é um bicho tinhoso e manso, Doutor. Hoje me veio com a cisma de que a nossa contança de mortos no papel… quer dizer, o arrasto que a gente faz sofrendo a agonia alheia pra botar nas letras… ele diz que isso é um “parto árduo”. Que a palavra reescreve as tripas da gente para melhor…

Não me desceu a goela, não me desceu mesmo. Fervia a raiva no meu bucho. Alembrei do meu avô, na matança do porco. O cheiro da banha fervida no barro… e a peixeira gasta… O sangue não faz o homem ficar bonito. Quem foi que disse que passar a vida contando os buracos do finado faz anjo descer de Deus? Falei do peso da faca pro gringo. Joguei limpo. Mas ele… ele parece que gosta de enfeitar espinhaço quebrado com laço de fita vermelha.

[som da cadeira rangendo na varanda]

Não tem limpeza na morte, doutor. O homem vai e cai fedendo na sujeira cega da sua própria angústia. Eu fico pensando… por que o Ted se agarra nisso? Será que ele mesmo tá com medo da própria asfixia suja no escuro, e quer esfregar a moléstia dele nos outros escrevendo livrinho de consolo frouxo? “A testemunha… altera a fibra íntima”… Conversa! Altera pra encardir, isso sim.

Eu desci a lâmina cega no gringo hoje, doutor. Perguntei na cara se essa necessidade louca de falar de defunto não é só a fraqueza frouxa dele querendo espalhar doença pro leitor…

[pausa, suspiro fundo]

O velho Tonhão dizia as verdades da terra. E o doutor lá dos confins vive das mentiras do céu de papel. Mas eu não vergo não. Não deixo…

[barulho de grilo longe] [a fita corta de súbito]