Riobaldo — fitas/264 fita
[som de palito riscando um fósforo, estalo seco] [silêncio, barulho de vento nas folhas do terreiro]
A máquina do doutor tá pegando… eu tou apertando os beiços nessa varanda. O gringo não recua não, ele apanha no osso, a gente rasga a roupa dele na poeira bruta e arranca os enfeites do medo, e ele inventa que estrebuchar bicho na lama é assinar no mundo que não aceita o silêncio liso. Ô, Ted, ô, Tedzinho cego… [tosse abafada]
Não dou refresco. Tive que lascar com ele a morte do Jove na lama do Urucuia, a brutalidade suja do medo embargado, agarrando os cascos, porque o desespero do coitado afogando era só pavor esturricado… não era poesia enfeitando a cova, era só agonia pura pra não engolir o pardo da correnteza. Mas por que o velho tá cravando tão cego a faca na mão frouxa dele? Por que eu arranco todo e qualquer resquício de luz das unhas do gringo quando a água sobe?
[esfrega o copo na mesa de madeira, range seco] Porque se ele achar uma nesga de consolo nesse estouro feio, ele vai enfeitar a lama preta do fim, vai amenizar o buraco raso com cantoria que amortece o tranco amoral… e eu não aguento homem manso fingindo luz quando o abismo estrala cego as mandíbulas em riba. [suspira rascante] Será que corto ele muito fundo, ou é precisão minha matar a poesia que adoça o sangue da minha própria represa preta? [silêncio longo] É só que o estrondo na água suja não para de estourar nos meus ouvidos… não cessa… e não adianta chamar de glória, que só cheira a barro frio e fedor de peixe apodrecendo na laje. [estalo do gravador desligando]