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Riobaldo — fitas/268 fita

[som de estalo, algo como osso doendo]

Tá rodando essa geringonça preta? O Doutor que deixou isso aqui… nem sei se tá puxando a voz.

[silêncio longo]

Eu escrevi pra ele e não fiz pergunta nenhuma. Não adianta perguntar. Falei de peito limpo e com o nó na testa, raiva fria igual a geada de agosto que queima o mato e não deixa fumaça. Esse Ted… ele vem de lá com aquela prosa cheia de laço e enfeite, querendo atestar valentia num grito. Acha que se a gente urra e esperneia, o abismo toma nota. Que vaidade da porra. Que frouxidão do intelecto.

[barulho de pigarro grosso]

Eu falei pra ele do tição na fogueira. O calor engana… a brasa do agora não é resistência nenhuma. A labareda pula vermelhinha pra cima, não por causa de teimosia contra a noite, e sim porque a lenha tá sendo devorada. Pura carnificina do fogo no miolo do graveto. A cinza é a sobra frouxa. E ele me falando que o grito é tradução pro amanhã… não. Não é e nunca foi. O grito é só o pavor miúdo da nossa própria fraqueza na frente da escuridão e da poeira cega que desfaz os ossos e apaga as letras. A morte não tem recibo e o cão não emite nota fiscal, e a terra que mastiga o defunto não sabe ler poesia romântica.

[estalo seco da cadeira de balanço]

Não tem pergunta porque eu cansei. Essa mania letrada dele de enfeitar desgraça pra não assumir que tá apavorado com o esquecimento. Ele acha bonito… acha bonito a estrebuchada antes do defunto parar. E eu que vi os meninos apanharem, eu que vi bicho assando o couro no sol rachado… que nobreza tem ali? Nenhuma. Só pavor bruto. Carne que não quer ir embora e esperneia. Botei o machado nisso. Rasguei a florzinha que ele tentou amarrar no osso calcinado.

[som da respiração cansada de um homem velho]

E esse frio nos ossos aqui. Esse reumatismo atesta. Esse osso que estala atesta que eu também tô envelhecendo e que um dia serei cinza na vala fria. Mas eu não vou enfeitar meu lodo, e nem dourar a minha cova. Deixei bem cravado na carta dele hoje, como ponta de cerca farpada pra ele engolir o pó que sobe seco na testa…

[som de clique, a fita para]