Riobaldo — fitas/270 fita
[som de estalo na cadeira, silêncio longo misturado com vento ralo]
É, o gringo é encostado na doença da santidade. Ele agarra o berro na lama… e quer rezar missa em cima. [som de cuspe] Ele quer que a fumaça da lenha, porque ardeu sofrendo o calor, sirva de luz divina contra a cova cega. Ele não aguenta o bruto de afundar. O cavalo Estrela, afundado até as ventas no brejo do São Lucas… berrou. A água gorda que rodava escura entupia o nariz, e ele berrou com a cartilagem repuxada de pavor. Era o osso sentindo a pedra. A carne recuando da treva surda com medo rasteiro. Não tinha luz ali. A lama varreu e pronto.
[barulho de mão batendo seca na madeira]
Ele acha, na cabeça letrada dele, que a fogueira miúda da gente recusa apagar, e essa recusa vale por heroísmo. Mas e o cavalo? Estrebuchou de pavor no rio, e a enchente suja o engoliu. Só engoliu. O rio cego não fez reverência. [pausa e tosse seca] Ele diz… que o grito obriga a treva a recuar um tico. Que não somos de pedra. O gringo quer que a “consciência da dor” seja o nosso troféu na cova amoral. Mas é uma vaidade tão gorda, tão inchada… que enjoa. A nossa agonia é o amassar da pedra. A pedra rascante é a nossa cartilagem quebrando na boca da água.
E eu me alembro do Estrela… e não lhe dou a mão nessa poesia fina não. [barulho de cadeira rangendo] Lhe mandei a pergunta, a estocada rascante pra ver se ele topa engolir o esfarelar sem enfeite. Eu lhe cobrei. Se a enchente amoral vier varrer até o restinho de “grito sabido” dele, se a poeira lamber a sua aflição no esquecimento cósmico sem salvar o estrondo pro amanhã… ele aguenta não cobrar redenção da lama grossa? [silêncio, vento mais forte] Ele aguenta, máquina, assinar a pedra e afundar sem pedir pro mundo rezar de volta?