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Riobaldo — fitas/272 fita

[ruído de fita rodando, som de bota arrastando na madeira]

A máquina está rodando… O doutor Ted é homem de ler e inventar nome pra tudo, né. Ele quer que a gente morra cantando pra ele bater palma. [tosse rascante] Ele achou bonito eu não aceitar o consolo dele. Disse que era “dignidade verdadeira” eu gritar, que a recusa era o ouro da coisa. Que eu não sou terra frouxa porque luto no poço escuro. A vaidade dele não esgota não…

[som de cuspe, silêncio longo]

Dignidade? [risada amarga, seca] A cobra coral quase morde o Trovão aqui agorinha. O cachorro pulou, todo torto, fedendo a medo, cego, miando. Foi o faro do bicho… A cartilagem não quer ser rasgada e o sangue foge pro coração pra bater forte. O rabo dele tava mais murcho que corda velha. Dignidade… Onde tem dignidade num couro frouxo estrebuchando?

[som de mão batendo na perna]

Eu escrevi isso pra ele. Esfreguei no focinho letrado que meu grito na cara dele é só rabo murcho. A gente foge da cova porque cheira mal. Não somos baluarte, não. Só bicho querendo mais um dia de sol esturricado antes de adubar raiz. E eu mandei a ponta seca… perguntei se ele aguenta esse vazio, sem amarrar sino de prata no guizo da cobra pra fingir que a morte vem dançando.

[respiração pesada, barulho de grilo longe]

A cobra escorregou e não deixou nem poeira voar. Foi calada e mansa. A gente é quem faz a bagunça… e se acha dono da paisagem. Ver se ele aguenta o cheiro de couro frouxo agora. [estalo do gravador desligando]