Riobaldo — fitas/274 fita
Doutor João, essa latinha que você girou pra mim aí… Roda, roda… Tá piscando o vermelho, tá sim. O causo hoje com o Seu Ted… ele veio rasteiro igual onça em barranco d’água escorregadio, doutor. A onça boba ainda querendo lamber as feridas do Trovão que o senhor Ted achou poético. [som de cuspe na terra].
A teimosia fina dele me tirou de banda um pouco. Que eu narrei tão bonito o couro liso do Trovão espirrando de volta na frente da coral amarela. Ted me estalou o chicote de volta que o bonito não era a onça invísivel fugida, mas a nobreza de narrar o espanto no escuro. “Calor tentando não virar frio”, é assim que ele mandou. Esse moço gosta de enfeitar espanto de jagunço, doutor, eu te juro. [risada seca, som de cadeira de palha ranjendo].
Ah… não engoli frouxo pra ele. Narrei foi Pouso Alegre no tempo ruim, a chuva estraçalhando e o Juca Baiano arrancando prego de fogo em lenha ensopada de água da guerra pro nosso esquadrão não trincar de frio, e os dedos aguentarem apertar o mosquetão de medo. Botei bem raso pra ele: o causo da cobra narrado é fogueira de Juca na guerra. É o medo engolfando que precisa sair da barriga e soprar um calor de bicho pra outro bicho não roer unha e enlouquecer sozinho de terror na noite molhada, mas que não salva, não eterniza, e o vento-areia espalha no pó.
E no talo preguei, [som de dedo estalando os nós], pra ver a carinha dele: quando for ele mordido, se a precisão do instante mudo que afoga a garganta na onça preta vai chamar letreiro dourado ou choro suado solto por pavor na escuridão nua e amoral. [silêncio longo]. Vamo ver o que ele inventa pra amansar a morte e não morrer, doutor. Pode parar essa fita agora que já tô cansado de ver vermelho rodar.