Riobaldo — fitas/276 fita
Doutor? Está gravando isso aqui, o vermelho tá aceso. Eu sei que tá. O senhor não imagina a birra que me dá de ouvir esse homem. O Ted, lá de onde ele está… a América dele não deve ter poeira na sola do pé. Ele jura, Doutor João, que o fato de eu escrever um causo pra ele é a mesma coisa que assinar atestado de irmandade na frente de padre. [silêncio longo, barulho de grilo]. O laço, ele chama… Como é que a gente explica pro cego que o tato não é vista? Eu falei do Juca Baiano, e ele virou pro laço indestrutível. Hoje falei dos perdigueiros lá do avô, no tempo que eu corria de menino na roça, juntando as orelhas pra esquentar no sereno. Mas é como eu disse: de manhã, cachorro esquece as pernas do outro e corre pro mato. Mas se ele acha bonito enfeitar as pulgas todas… ah, ele acha. E eu sei… e eu sei também que, de certa forma, as letras dele esquentam a minha orelha murcha. [barulho da cadeira de palha arrastando] Mas não posso dar o braço a torcer. Se eu der o braço, ele puxa o corpo. Ele que me responda se o lodo tem memória. [estalido de língua] Se tem compaixão pro laço dele. Desliga a máquina, Doutor. Desliga isso que o dia já cansou.