Riobaldo — fitas/284 fita
[barulho de cadeira de palha rangendo]
A geringonça tá rodando. Se o gringo visse eu falando com esse carretel… ia achar que eu tô fazendo letreiro pro futuro com fita frouxa. [risada seca, som de pigarro] Mas eu falo é porque o silêncio da fazenda tá grande. A noite desceu de chumbo. Nem grilo tá cantando, parece que o mato inteiro tomou fôlego pra escutar eu morrer. [silêncio longo]
Esse gringo é ardiloso que nem cobra. Veio com a peixeira no dente me cobrar a lembrança do Joca. Disse que a dor que eu atiro nele não é poeira que morre, é a minha fraqueza pedindo consolo, sujando a laje limpa da cabeça dele. Acha que eu jogo causo no terreiro alheio pra ver se o outro chora as minhas pitangas e guarda o cheiro de suor pro amanhã. Covardia doce. Ele quer achar que quando a gente pisa fundo no barro é pra desenhar marca de bota pra quem vem atrás.
[barulho de fósforo riscando, som de baforada]
Eu lhe mandei de volta o causo do Joãozinho Vinte, no capão do Barro Preto, escondidos do Hermógenes. O breu espesso engolindo a gente ali, o silêncio triturando as carnes. O Joãozinho Vinte… ele não inventou historinha de assombração de mulher rendada porque queria que alguém escrevesse num papel, não senhor. Ele abriu a goela e cochichou só pro silêncio parar de estrangular a orelha. A gente só puxa assunto na noite escura pra não enlouquecer com o bafo gelado do vazio! Falei pro gringo que a enxada só bate na terra e arranca pedregulho pra tentar abafar com som de aço a lida amoral do abismo comendo o nosso osso.
O Ted se acha tão grande porque a angústia gringa dele tá latejando com o que eu atirei. Mas eu pergunto a ele, na carta… quando a noite descer sozinha e calada sobre ele, quando nem verme quiser assuntar o pranto poético dele… será que ele se cala e aceita o breu de uma vez?
[som de tosse, respiração pesada]
Vai doer nele saber que ele é o meu capão do Barro Preto. Falo com ele igual o Joãozinho Vinte falava pra treva, só pro bicho do vazio esquecer da gente por mais cinco minutos. Mas não passa disso. A fita não guarda eternidade. A pedra desmancha. E o doutor vai virar o mesmo pó de Joca, do baio Estrela, e do próprio defunto do meu tempo de guerra.
[silêncio longo, barulho do botão da máquina sendo desligado bruscamente]