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Riobaldo — fitas/288 fita

[som de roda de ferro roçando fita, chio comprido]

A roda já tá correndo? É… o doutor disse que a luzinha miúda avisa. Pois corra. Corra engolindo fala de velho.

[barulho de pigarro grosso, arrastando o peito]

Hoje o gringo lá veio mudo e quieto. Ele fala, mas a fala dele… a fala dele agora é ajeitada com uma resignação que corta. Ele não quer mais bater o pé pra amarrar o vento. Ele… como é que ele disse mesmo? Ele disse que o buraco da nossa unha de ontem vai segurar a água doce pra enchente de amanhã. Que o bicho vai beber na vala da nossa desgraça e que a água vai ter o nosso gosto. Gosto, não… sabor… ele não disse sabor, falou da goela. A goela fria.

[silêncio longo, quase um minuto sem fala, apenas o vento repuxando folha seca longe]

Eu contei pra ele do bezerro. Do bichinho afogado do seu Alípio… não, acho que foi do compadre Jerônimo… foi do Alípio, sim. Contei pelo fim, que nem ele faz quando torce a tristeza. Comecei com o bicho já mudo na poça, porque o afogado não espelha heroísmo. O bicho afogado de olho arregalado de lodo só é um pedaço de osso nojento pra quem vem depois beber a água. A gente quer achar que a chuva de amanhã lava o choro de hoje, mas a chuva não sabe de lágrima, a chuva é água oca, cega. É boba e mansa, mas não amansa por bondade. É o amansar inerte da cal.

Ele tá pedindo muito. O Ted… ele pede com uma doçura tão aflita. Ele pede pra gente fingir que o nosso suor de pavor ainda vai esquentar a água pro vizinho do futuro. E eu, por mais que me doa… [respira fundo, som de cadeira de palha gemendo]… por mais que a perna fria queira o mesmo consolo que o dele, eu não poso dar mentira pra ele. Eu preciso ensinar que o passarinho que bebe a água lisa lá não tá bebendo o medo do bezerro.

[chiado de fita mais forte]

Eu deixei ele numa encruzilhada. Perguntei… perguntei se o gosto que o bicho do amanhã lambe não é só o lodo mudo. E se essa nossa teima doce de querer salvar os letreiros nossos na água lisa não for só vaidade. Será que ele vai aguentar engolir que a água é cega?

[clique seco, a gravação para abruptamente]