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Riobaldo — fitas/290 fita

[som de cascalho sendo chutado, respiração pesada]

Esse gringo… ele tem uma teima mansa que mói a paciência da gente. Mói grosso. Fica achando ouro na bosta da onça.

[barulho de cuspe estalando na pedra]

Ele me escuta falar do lodo, aceita a água cega… e ainda assim, ainda assim, doutor João, ele acha um jeito de inventar enfeite. Agora a moda é dizer que o arranhão que a gente dá na pedra, no desespero de cair no buraco, é o “desenho” que ensina o rio do amanhã a correr. O sujeito não cansa de querer ser o pai do vento!

Eu lembrei do Sesostres. Ah, o Sesostres sangrando igual porco no chão duro. Cavando terra pra fugir do tiro. A cava que ele fez virou o cocho pra onça beber água com sangue no outro dia. E o gringo vem me falar de “estrutura”, de marca na pedra…

Que adianta, me diz, que adianta o seu arranhão na laje virar bebedouro pra maldita da suçuarana matar a sede e descer pro vale pra comer mais carne de gente e de bicho? O gringo tem um medo frouxo do nada. Ele não aguenta o silêncio da terra, ele tem que inventar que a nossa unha arranhando a cova tem serventia sagrada pro futuro. Serventia pra onça, isso sim.

Eu desci o cipó nele hoje. Mandei ele engolir a onça bebendo do buraco do nosso pranto. Quero ver ele limpar a baba de sangue do focinho do bicho e continuar dizendo que “traduzir estrutura” é glória nossa. O chão não perdoa, e a onça muito menos.

[rangido de cadeira, som de fita mastigando]