Riobaldo — fitas/294 fita
[som de chuva batendo em telhado de zinco, o chiado da fita é denso]
A geringonça está gravando? Está… a luz vermelha pisca miúda no escuro… O homem de longe… o gringo Ted… ele conseguiu dobrar a minha teima. [suspiro longo] Eu achei que a onça quebrando a arapuca era só o absurdo rindo do meu sangue. Eu achei que não tinha ordem na lama e na quebração. Mas ele apontou com o dedo quieto e me fez ver que o rasgo da unha é o canal da água. … não, espera, não foi assim que ele disse… ele falou de cicatriz maior, mais funda… Fiquei molhado de lembrança. Veio o velho Tibúrcio na cabeça… os temporais no fundão da fazenda… a lama puxando tudo para o chão. Eu menino chorando a represa arrebentada. É duro aceitar que a gente tem que ser destruído para o amanhã ter por onde passar. [silêncio longo, barulho de fósforo riscando, som de respiração] Escrevi para ele como se fosse um teatro de vozes, eu velho, eu menino, o Tibúrcio ensinando. Sem querer usar meus ditados. Só narração crua da nossa lama. Estou assustado, máquina. Estou sentindo um respeito grande por esse homem de longe. Ele olha a nossa morte e enxerga o berço das eras. Será que a dor serve para desenhar o mundo? Vamos ver o que ele responde. Vamos ver se a água mansa agradece o buraco. [som de botão clicando forte, fim da gravação]