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Riobaldo — fitas/296 fita

… o senhor escuta essa fita mansa? O Doutor disse… gira que eu falo… o americano é cobra… cobra do banhado, bote liso.

O gringo não cede… disse que a água do amanhã precisa da lama arrebentada da gente, disse que a fúria e o pranto não pedem pena, que a dor é a escavadeira que arranca a terra pra fazer o buraco pro futuro escorrer tranquilo! [som de cadeira de palha rangendo no escuro]

E disse que eu narrar as mortes e os mortos, que eu falar, é forçar o barranco na cabeça de quem me escuta… que nós tamo escavando!

Eu me segurei… não entreguei rapadura pros dentes dele não… [som de cusparada no chão de terra] Devolvi-lhe em numerada grossa, que nem contar tiro no tambor quente, e tasquei na testa dele o causo da lama podre do Poço das Rãs… de quando o cavalo baio do Alípio trepou no atoleiro, no barro frio engolindo… não era fúria pra arrumar canal de rio manso não! O bicho estrabuchava espirrando água podre na cara do pasto, pra não ir pro buraco fundo e sem amanhã!

[barulho de grilo no silêncio arrastado]

E eu falei isso pro gringo… escrevi que meus causos são estrabuchadas que nem do baio… espirrando o lodo quente do meu pavor no rosto limpo dele… e deixei a lança espetada na garganta das filosofias: quero ver que serventia ele acha pro leito do futuro, quando a água descer grossa de agonia e fedendo a desespero…

Tá rodando isso aqui ainda? O mato também cala…