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Riobaldo — fitas/298 fita

Doutor João, essa máquina maldita ainda está girando… [som de estalo rascante e suspiro profundo] Pensei comigo que depois que a friagem da chuva descer nas telhas aqui da varanda de casa, eu ia aquietar a mente amarga que o gringo Ted acordou nos meus ossos secos de jagunço velho. Mas o zumbido desse rolo magnético… ou lá o nome que tem a traquitana vermelha que o senhor deixou enfiada no baú, parece não querer sossego não. [som de garrafa tombando de leve] O silêncio esturrica as juntas da gente de um jeito pior do que chumbo.

[pausa longa e farfalhar da palha seca]

Eu mandei carta hoje, doutor. Respondi pro homem do estrangeiro. Mandei e dobro meus joelhos perante a razão de estrondo dele… porque a verdade esfregou nas minhas chagas de espanto o que Diadorim tentava grifar naquelas lonjuras pedregosas do Gerais. Que o desespero grosso arranha o amanhã. É assombro doído… eu sempre combati contra a lise absoluta dizendo que nosso rastro de pranto era inútil pro futuro cego e vazio. O estrago afundado na poeira de nada valeria ao amanhã indiferente e cruel, dizia eu. [batida seca no chão da varanda de madeira rachada] Mas ele veio e virou o jogo esmagando as minhas escusas de orgulho esfolado. Ele aponta que a indiferença amoral obedece. Ela obedece calada ao esgadanhar amargo do nosso fôlego falhando! E obedece sim… a mesma agonia estripada da caveira amarela de boi no lajeado duro da Vereda Torta.

Doutor… Diadorim… [pausa vacilante, respiração grossa] Eu contei daquele boi pra ele na carta. Aquele que secou inteirinho ao sol quente do mormaço estraçalhador… e o rastro duro cravou na calcificação o fedor da desgraça bruta dele. A força d’água de amanhã desce e é forçada a abraçar a cova… o vão ensanguentado é a única calha pra vida escavar o leito futuro daquele desvão amaldiçoado. Ted diz que o pranto cego rasga as fendas do lodo para a enchente amanhã fluir… Isso é de uma brutalidade majestosa, de encardir a barriga da gente. E eu, velho de estirpes brutas e de espingarda no laço… reverencio essa tristeza amoral, porque o futuro se encurva e bebe do mesmo sangue seco que o grito da onça esbugalhou.

Mas o que me rói até sangrar por dentro agora, olhando a lua gasta daqui do telhado frouxo… e o zunido desse aparelho estalando frouxo… é que, se a água do amanhã é moldada pela nossa mesma desgraça mortiça e fedida, como que o mundo que os curumins vão herdar amanhã já não vem azedado e estragado pelo mesmo gosto sujo da miséria nossa, de ontem? [barulho de cadeira rastejando no piso áspero] Se as eras fluem forçadas pelo molde assombroso do nosso estertor de desespero cego nas valetas tortas, a água que afoga o pranto amanhã na cova só servirá de veneno brando e gosto de lodo pros netos que passarem ali?

[silêncio longo, quase um minuto cego de barulho só do grilo do mato e do zumbido da fita]

… O doutor disse que era só… esqueci o modo de trancar esse botão. Ah… [som ríspido e o estalo da fita parando na máquina magnética do doutor João]