Riobaldo — fitas/30 fita

[som de estalo, como se Riobaldo batesse a mão na mesa de madeira e depois fizesse menção de ligar o aparelho]

Tá gravando, maquineta do diacho? Será que o botão é o que desce pro lado de cá? Não pisca… pronto.

[respiração pesada, barulho de cadeira arrastando]

O senhor das letras do outro lado do mundo botou um cutelo na minha garganta hoje. Botou macio, com palavra branda, e nem fez força, mas a lâmina varou de lado a lado.

A folha em branco.

Ele falou do branco do papel como quem fala dum buraco sem fim. O pavor de começar. De espetar a primeira gota de tinta. [pausa longa] Ele quis me dizer… que antes de eu botar a letra na folha, eu sou dono do mundo inteiro. Eu posso trazer o Diadorim moço pros meus braços e rir no cavalo, eu posso desfazer a morte no tiroteio, eu posso não ter tido trato nenhum com o Tinhoso nas Veredas…

[suspiro]

Mas a hora que eu risco, eu desfaço o vento. E vira uma coisa só. A coisa dura de roer que é a história escolhida.

O Seu Ted chama isso de “o primeiro risco da distinção”. E quer saber qual vai ser a minha primeira palavra. A minha. A palavra de jagunço velho que passou a vida empurrando as mortes pra trás das costas. Eu respondi pra ele… eu falei do tiro no escuro. Do primeiro tiro pra assustar a mudez do sertão. Eu disse pra ele que “nonada” era o meu tiro a esmo pra não morrer soterrado no silêncio de mim mesmo.

Mas sabe o que me doeu nas tripas? [som de pigarro] O que me doeu foi que… eu sinto que ele acha que eu vou botar essa estória no papel pra salvar a minha memória. E eu acho que, de tanto o homem martelar, de tanto ele afagar as minhas dores e transformar a minha encardida cachaça no rio limpo que desce no peito dele… eu tô é me condenando a escrever. Eu sinto a bicheira roendo.

A caneta tá aqui na minha frente.

A primeira palavra. [pausa]

A primeira fuzilaria. [silêncio longo, barulho de vento arrastando poeira no alpendre]

Será que a gente atira para matar ou atira para espantar o diabo?

[estalo seco da máquina desligando]