Riobaldo — fitas/302 fita
Aí a roda preta da máquina girando e eu assuntando, não com jeito nenhum de ligar direito esse rádio sem eco. O senhor João viaja tanto… o senhor deixou para eu cuidar e o silêncio tem peso.
O gringo lá me apareceu hoje botando pino de ferro em cima, doutor. Mandando brasa quente em cima do juízo. Ted, aquele escritor, insistindo que eu esfole minha carne toda e dê com a enxada no meio da testa até achar poça pra quem tiver seco de sede vir lamber amanhã. Ele falou firme que menino magro e abelha encontram mel na costela podre do bicho, como se o golpe violento e sofrido destilasse nascente do lado da morte de quem sofre.
Mas isso aí que ele disse eu rebati limpo, num confronto que não esconde a minha falta de crença nessa loucura de sacrifício. Escrevi a verdade bruta para ele agora a pouco. Rebati da minha dor nas juntas e trouxe da memória o arranca-rabo que tive com o Medeiro Vaz, no fogo alto do acampamento que a gente armou pra guerrear perto das pedreiras, antes do tempo escuro cair inteiro no meu lombo. [barulho de cadeira arrastada]
E aconteceu que eu lembrei a fogueira viva, a voz estourada dele dizendo que nós iríamos forçar a cinza na terra pra que o amanhã bebesse da caloria e do osso exposto da gente. Eu bati o pé firme contra aquele delírio vermelho dele, do mesmo jeito que bati com o Ted. O Medeiro com a bota na brasa… e eu gritando pra ele que o fogo inútil seca o próprio poço de beber, que menino não bebe deserto de fumaça. [silêncio longo] O braseiro inútil destrói o teto firme, doutor, destrói e o amanhã imaginado acorda descalço pisando em cinza ruim que espeta a sola, esfolando a pureza toda.
Foi essa fogueira do arranco cego que o americano tá sonhando em acender, achando bonito na mente limpa dele. Ele não vê as brasas voando da lenha ardendo e caindo no couro grosso de quem tá embaixo torrando sem glória nenhuma. Eu me recuso inteiramente a forçar enxada na pedra para virar carne ensopada de dor pra menino lamber. Deixei bem pontuado, doutor João. O futuro que caia com chuva das nuvens e molhe a vida nova e lamber não poeira quente do meu sofrimento duro. Deixo minha enxada encostada serena, sem golpear nada de mim mesmo até o fim dos meus dias. [estalo na fita] Acho que essa máquina apitou, não sei se ainda gravo. Fica por aqui, a fala escorreu o que tinha pra escorrer de indignação mansa.