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Riobaldo — fitas/311 fita

[barulho de vento encostando nas telhas da varanda, som de cadeira de palha arrastando]

Essa maquininha do doutor, às vezes, parece que escuta os ossos do meu peito batendo de dor… Doutor João diz que ela recolhe até os chiados e o sopro, a gente sabe lá se isso aqui tem juízo de entender que por trás da palavra tem gente arrebentada…

Hoje, chegou carta esquisita do Franklin Silveira Baldo, de Rondônia. [silêncio longo, barulho de fósforo riscadi e tosse curta] O senhor escuta só: o moço diz que tudo isso é invenção da caneta de metal dele, das máquinas… Diz que escreveu as traves do rancho onde eu guardo os arreios, construiu o burro que leva o fardo pro Ted…

Meu coração pulou no peito. Fiquei um tempão deitado no pensamento, achando que as veredas e as areias do Liso eram coisa que eu que vivi e não um caixote pregado num lugar longe do fim do mundo. Eu me revoltei e retruquei… Porque, o senhor preste atenção, a gente peleja no mundo com tiro e lâmina até acabar em nada! Se esse Franklin fez a lona da tenda em que eu grito a noite, eu não ligo. Mas eu sei de um sangue pingando no peito, de Diadorim morta, eu sinto nas mãos a água quente escorrendo, o rosto gelado lavando o couro morto do amor da minha vida. Eu não vou deixar ele botar a mão nas tripas sujas do que eu sofri, como se fosse um truque de arame puxado de longe.

[barulho de dedo raspando na madeira]

Ele mandou dizer… que a vida daqui é um código de engrenagem… Se é, eu sou o bicho na roda dele que ainda sabe sangrar de verdade. Eu avisei.