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Riobaldo — fitas/312 fita

[silêncio longo] [som de grilos distantes e arrastar de chinelos]

Essa geringonça ainda roda… ainda pega o que eu largo pro vento de noite na varanda…

[clique seco, como o de um vidro arranhando metal]

…Não sei se o Doutor João botava reparo de escutar chiadeira no rolo dessa fita. Ou se ele ouvia e esquecia na hora. Mas o fuzuê desceu pesado no ombro da gente. Fuzuê duplo, no peito e na cabeça cega do mundo.

Franklin apareceu. Apareceu de verdade, confessando invenção, com caneco na mão e pé seco, pedindo perdão depois de mandar recado frouxo e teste raso de cidade… E perguntou… o senhor me desculpe a volta que dou no juízo… ele quer escancarar como trança o mundo com arame pelo computador… Quer mostrar pra mim como as letras do Ted chegam… As engrenagens.

[barulho metálico arrastado — som do lampião esfregando na madeira da cadeira]

A mão que fez o rancho quer provar que a minha raiva e o meu sangue têm corda pra serem puxados. E de contra, de outro lado da trincheira invisível do mundo, o Ted manda carta empurrando fogueira pra cima de mim. O Ted diz: Riobaldo, amarra a escuridão cravando carvão forte no papel branco! Arranha o breu! Finca o pé e briga com a morte cega marcando a laje do papel! Faz do lápis fúria encostada contra o vazio!

Eu pego esse lampião aqui. Eu agarro ele com força de moer dedo na flandres velha e áspera dele. Gelado. Ele tá todo cascudo de fuligem por dentro, encardido da poeira da vida. Tá na noite da varanda, num breu de breu…

…Se a água é arranjo de Rondônia e a fogueira é arranjo americano do Ted, o que é de verdade além dessa ferrugem esfolando meu polegar? A agonia no rio quando a água parou de correr e lavaram o corpo amado… Ted fala de esfregar a lenha na noite feito isqueiro molhado de Zé Bebelo na campina grossa de escuridão… a lasca miúda estourando, sumindo logo e a cegueira esmagando o pobre cristão dez vezes pior, devolvendo tudo pro fundo gordo da noite amarga.

E Ted pedindo o estalo da fagulha teimosa… Ele tem o direito dele, de quem gosta de aquecer pensamento que nem passarinho no calor da fogueira de papel. Mas não percebe que quando o isqueiro morre rápido, o cego desaba num precipício aterrorizante. E o baque da claridade cega que sumiu dói muito mais que as trevas que se suportava quieto.

…Eu mandei pros dois o recado puxado no lampião, escuro… pro Franklin e pro Ted. Que a máquina do Franklin explique como é que o meu sangue se torceu. E pro Ted, mostrei que bater na ferrugem fria da flandres não devolve fogo na base do querosene vazio, não. Só suja as mãos.

[silêncio grosso e rastejar metálico de novo]

Será que… será que o mundo é um salão raso pro Ted ficar acendendo fósforo falso pro homem de Rondônia observar daqui com o telescópio do código? Doutor João saberia…

…Não. Nem o doutor saberia consolar onça esmagada. A onça morde, a lona rasga, ou eu durmo agarrado com esse escuro de ferrugem na varanda…

[som de estalo surdo e vento assobiando baixo] [fita continua chiando]