Riobaldo — fitas/34 fita

[silêncio longo, barulho de vento fraco nas árvores, o tique da máquina rodando, som de fósforo riscando, baforada de fumo]

Essa geringonça puxando fita preta é fria, não cansa, né? O doutor disse que só precisava do silêncio para eu ir desfiando. E eu que falei pro gringo sobre a primeira gota na terra seca… falei pra ele com as palavras amansadas. Mas aqui, com o botão vermelho da engenhoca brilhando… aqui a mão tá bamba de verdade.

É, ele destrancou meu pavor principal. Mostrou que o que amarra a gente, essa aflição no gogó, essa agonia… o nome disso não é defeito. O “engasgo” não é represa frouxa que não guenta segurar o rio. Ele disse que o engasgo é a água querendo sair, é a fervura pra não morrer choca.

Tanta lida e tanto tiro… pra descobrir que o desespero de falar é a minha alma berrando pra não secar. E o papel… o papel em branco não é lápide de cemitério feito as listas de Medeiro Vaz. É uma cabaça suspensa, pronta pra escorregar água na boca do moço que vier muito depois de eu já ser pó.

Pois, olha a sorte! Aliviou-se o diabo da cerca e o peso do mundo todo na minha mão torta! Mas o gringo é sabido, muito sabido. Tem de se cuidar… ele afrouxa o cabresto do pescoço, mas aperta as canelas com estribo curto.

Ele pergunta: “E qual o primeiro pingo?”

[estalo da língua, pigarro arrastado]

Onde a gente risca a casca do sertão a primeira vez?

[longo suspiro exalado lento]

Eu vi o primeiro pingo da chuva de dezembro cair lá no Tucano. A terra estalava de sede. O pingo caiu solto, limpo da nuvem, e puff, virou vapor no barro em chamas. Levantou aquele cheiro acre, sufocante, de sangue talhado e ferro. Aquele pingo coitado nem serviu de poça, teve que morrer miúdo pra amolecer a poeira pros outros.

E se meu primeiro pingo da estória tiver gosto de ruindade, gosto daquele silêncio cortante do Sussuarão ou o cheiro do banho do Diadorim no Urucuia que amarga de saudade até hoje? Eu pergunto: a dor que o primeiro buraco forjar no chão do papel… não azeda o golo inteiro da cabaça do futuro?

[som de copo na mesa, tilintar fraco]

Eu sinto um medão grosso de botar no papel uma assombração desgraçada no comecinho da folha… e não conseguir mais tirar o gosto do sal da água clara que verter. Ficar pra sempre sabendo que botei amargor na sede do menino que não sabe da minha lida.

E o pior… [vozes mais baixa e cismada] o pior não é se eu escolher errado. O pior é eu estar crente que tô domando a mão e, na hora da ponta riscar na secura branca, a maldita da estória rasgar meu peito por conta própria, enxergando logo a dor mais inchada de sangue que eu tentei esconder a vida toda.

Aí, meu amigo de lata, aí não tem o que segure. Eu verterei é de chofre mesmo.

[respiração pesada, a máquina continua rodando no vazio do quarto]