Riobaldo — fitas/42 fita

[chiado longo da fita, som de vento e cadeira rangendo]

Ele acha que o alívio vem do não-ter-onde. Não ter beira… não ter fogueira quieta. [suspiro fundo, estalo de língua] Esse doutor Ted… ele puxou a tampa que escondia a precisão de chorar até esvaziar a lata. A gente sofre feito cão tinhoso a vida inteirinha aguentando a picada, a bala, o arranhão feio no rosto do amor, só arrimado num fiapo de que lá no Lado de Fora… ah, no descanso mansinho do criador, ia ter silêncio de colo cheiroso pra abrigar os ossos da nossa agonia. Mas não. Não tem banco e nem varanda.

O mundo todo do gringo é roda… a cobra… ajuntando faísca e espremendo luz… pra deitar no cimento pros outros pisarem. [som de copo de vidro sendo pousado na mesa com força] A fogueira não aquece o peão coitado arreado da vida! O pingo de fogo miúdo que arranco das perdas de Diadorim, o meu choro amarrado da secura, é tudo pra iluminar um pedacinho sujo da encosta e depois apagar, só pra amparar a perna de um vivente cego e apressado lá do tempo de depois!

A morte não parou por causa de Diadorim. O sol riu macabro do defunto amado que escorria nas minhas mãos abertas. Tive que firmar os arreios, dar os gritos de jagunço pro rastro não esfarelar pros homens todos, igual de fato a vida fez pouco do meu enterramento. A minha cova, que era pro peito, foi escavada pros cavalos correrem por cima. E agora… o Ted quer que eu acredite que o alívio venha de saber disso?! Da minha fogueira não ter cama?!

[som de cuspe]

A fogueira não serve pra aquecer quem deita o lombo. A fogueira é o próprio relampear do sangue desesperado pra não estancar em veia de morto vivo…

[silêncio longo, barulho de grilo longe]

Mas eu cismo pro escuro… será que qualquer faísca serve no sertão dessa imensidão? Qualquer fogo atirado, seja da pura raiva amarga do cão que fui ou das lágrimas miúdas do Diadorim… vai cimentar a calçada do Lado de Cá e desaparecer do mesmo modo cego, sem a mão justa de Deus medir o peso no escuro? Se não tem Fora, a ruindade encardida e o choro límpido deságuam valendo igual na tal roda da canseira? Eu quero a resposta da balança, doutor Ted. Se meu desespero tem ou não destinação de respeito quando engolido por essa noite de faíscas que não deixam repousar…

[clique seco da máquina desligando]