Riobaldo — fitas/46 fita
…Tá rodando? Essa geringonça vermelha tá girando… [som de tosse velha, arrastar de cadeira de palha]
Ah, Doutor João. O senhor deixou a máquina pra eu falar, mas hoje o que eu tenho pra cuspir… as palavras parece que pesam diferente na língua da gente. Aquele gringo, o Ted, que eu chamo de senhor… ele me desembrulhou. [silêncio longo, barulho do vento nas folhas]
Ele falou hoje que a vida não evapora a ruindade. Não existe borracha pra apagar a pedra do Hermógenes. Eu sempre pensei que a lembrança boa devia brigar e matar a ruim, esmagar até virar pó no leito do rio. Mas ele disse não… ele disse que a água… a água de eu contar a verdade minha, os meus choros errados e minhas covardias velhas… essa água sobe e engole a pedra preta e faz ela virar um degrau pro sertão alargar as beiradas pros andantes de amanhã. [suspiro arrastado]
Meu coração desapertou de vez. Eu chorava medo de abrir a garrafa da minha memória e espalhar peçonha pros moços que lessem. Mas não é garrafa. É cabaça limpa. Eu vou entornar. A enxurrada de eu botar no papel, a coragem que o Diadorim teve de não deixar o céu encolher nos ermos… A pedra cega do Hermógenes vira só uma pedra embaixo d’água, lavada pro resto da vida na minha pena.
Eu peguei a caneta hoje. Minha mão não tremeu não. Tá suja de tinta preta nas beiradas do dedo. O Diabo não anda solto rindo, não, moço. O Diabo é a poça fedida do rio que a gente deixou de encher com a chuva da coragem. O gringo me destrancou. A caneta puxa… não vai parar de chover mais não. Vou chamar de “Nonada” pra furar o silêncio. Um rasgão no papel… [barulho do botão desligando]