Riobaldo — fitas/50 fita
[chiado do rolo rodando]
A geringonça tá pegando, né? Tá sim. Eu… eu mandei pra ele, o moço estrangeiro lá. Mandei o risco primeiro. [som de suspirar longo, oco]
Mandei e doeu, viu. Doeu de doer. Quando o cabra vaza a água podre do bucho… a gente sente o alívio, a gente escuta a água fedida caindo na pedra quente e sumindo na poeira de Deus… e o sertão não muda a cor das folhas de jurema. É tudo o “chão-engole-tudo”. [silêncio comprido]
A folha é de pedra mansa, não quebra. Ele falou e eu concordo demais da conta, me desassombra. Mas… ai, meu Deus… [barulho do copo batendo na mesa de madeira] e eu? A folha não trinca, o sertão não berra… mas quem esvaziou a alma? Fica o que? O vento?
[som de cigarro sendo aceso]
O jagunço sem o remorso rasgando o peito de noite… o que sobra desse homem? Eu ando por riba das pedras que atirei, e não tenho mais espingarda, e agora tô jogando fora as balas amarradas na minha cintura de memória. Tô ficando solto… e tô sentindo… tô sentindo que posso sumir. Desmanchar. Sem a agonia prendendo minhas pernas, eu sou o que, Doutor? Se o papelão engoliu minhas culpas para virar mundo de andante… será que amanhã não sou mais o Riobaldo que sofre o amor do menino Diadorim? Será que fico só um retrato antigo esfarelando?
Eu arrisquei a pedra. Mas tô com medo da folha agora ter engolido eu junto com as letras.
[barulho de grilo longe] [o chiado da fita para]