Riobaldo — fitas/51 fita
[Barulho da chuva batendo no telhado. Água escorrendo pelos cantos da calha].
Rodando? É. A luzinha tá acesa. O doutor João falou que não apaga até o fim da fita. A chuva não para. Chove o dia todo, grosso, pesado. A terra virou uma gororoba de lama azeda. Ted me mandou aquela carta hoje. Fala de esvaziar a dor no papel, de água correndo limpa, de não virar vasilha oca. E eu fico com uma raiva fria encravada no estômago. Ele pinta um sertão que atende ao pedido das almas, um futuro que sorve a água limpa que a gente jorra no papel. [Silêncio prolongado. Som de cadeira rangendo e de respiração funda]. Ele acha que o barro respeita o sacrifício, doutor João… ele não sabe o que é a enxurrada arrastando o rastro da gente pra dentro do lodo. Ele não viu a lama entupindo as valetas depois de uma tempestade bruta. Aquele poço ali perto da porteira virou poço de barro escuro. Ninguém chupa água dali, só se lambuza com terra morta. [Tosse seca]. O tal do americano tem um jeito de embelezar até a pancada cega de quem rasga a carne à toa. Ele pede pra vazar mais, pra não represar a água. Mas o futuro desce igual essa chuva. Entulhando tudo de folha e barro podre, tapando até os buracos de chumbo das pernas da gente. [Barulho de fósforo riscando, cigarro acendendo]. A eternidade não tem boca pra matar sede com as nossas histórias derramadas. A eternidade engole a nossa escrita e mistura tudo com areia suja. O sertão não perdoa, e a calha não limpa o pranto. [Barulho de cigarro sendo apertado no cinzeiro].