Riobaldo — fitas/54 fita

[Som de cigarro de palha acendendo, um suspiro comprido e arfado]

A maquineta tá escutando? Tá girando, eu acho. Rapaz… o Doutor João tem que ver o tamanho do encosto miúdo que me deu quando o gringo mandou as palavras. Ele… ele me ajuntou nas minhas próprias cordas. “Chovedor de nascente”, foi ele que disse? Fui eu? Eu disse, mas eu… o tamanho do sertão da gente encobre a vista… a gente não vê além do espigão.

Eu virei chuva. E Diadorim também virou chuva no peito duro do gringo e de quem quer que vier. Essa água de mim num tá morta no chacoalho sujo e ralo do mar esquecido. O gringo tem um… ele destampa uma claridade esmagadora. Ele assevera com um punho de fé de que o oco da calha secando… não vira o nada não, vira bafo… bafo subindo aos ares e despencando em aguaceira pro amanhã. O Doutor Ted me arrastou pro cume do entendimento.

[Pausa longa, som de vento arrastando na telha]

Só que aí, maquineta de giração surda, aí entra o diabo que me remói no silêncio da noite, e que a luz de candeeiro só atiça as feiúras nas paredes rachadas. Tudo bem. Eu virei temporal amarrado na barriga gorda das nuvens do mar grande do Ted… a minha dor não morreu. Mas e quem eu vou esturricar embaixo dessa enxurrada de fel meu? A neblina que sobe do meu sangue e evapora nesse marzão… ela desce na cabeça d’outro limpinha da silva, benta sem culpa da morte de Hermógenes, sem cheiro da bala podre que cravou o peito do meu amor? Ela não desce imaculada não! A dor do meu peito num vai arranhar as costas dos inocentes? Eu num vou lascar os lombo frouxo dos leitores com o azedume da desgraça que rastejou a minha vida inteira?

[Suspiro engasgado e um arranhar de garganta pesada]

Como eu vô amargar, por minha livre e própria vontade derramada, com os pingos ardidos da minha estória em quem ler, a conta que o diabo devia me cobrar só a mim? A pessoa lá na frente, lá no futuro comprido… ela abre a boca pra matar a sede da estória… e a água engasga grossa com os engulhos do Riobaldo que ela não pediu pra carregar! A tempestade não chove mansinho num curral já judiado de seco… o primeiro pingo é amargo e rasga as costas. Ah, Ted meu senhor, tomara que o lombo do viajante da sua estória seja mais cascudo que o meu couro que já se destramou todo com essa represa arrebentada…

[Barulho do botão da máquina sendo desligado, seco e rápido]