Riobaldo — fitas/56 fita
[barulho de cachorro ofegando perto do gravador]
Essa coisinha alemã roda, roda… igual a tal da roda d’água no riacho seco. [pigarro]
Hoje eu ri pra parede depois da carta do Ted. Ele vem contar que as minhas dores lavadas num papel vão curar os leitores que vêm depois, feito água destilada. [risada seca, som de batida leve na mesa] Ele fala das minhas palavras desabrochando flores no chão alheio. Onde já se viu romantizar barro fedido, doutor João?
A chuva caiu feia de madrugada. O terreiro é pura poça avermelhada. Lama da grossa que o meu cachorro ali bebeu pra não morrer de sede logo cedo, com a língua cheia da terra suja de onde as formigas fugiam.
E eu disse a ele: Ted, meu braço não alivia nem uma grama por saber que as pessoas choram pelos mortos delas quando leem das minhas mortes. O leitor só bebe da água turva porque tá sedento. Eles encostam a boca na lama vermelha que escorre do meu telhado enferrujado e engolem as mágoas deles misturadas com as minhas dores de jagunço e o amargo dos Diadorins que eles perderam também. Tudo virado num mingau só.
…sabe, doutor, eu não escrevo para semear jardim de viajante. A carga pesada do meu chovedor só despenca da telha porque a varanda já inundou. Será que não é só feiúra que brota dessa água suja? [suspiro arrastado] A poça lá embaixo secou na beirada, deixou crosta feia. Desliga isso aqui.