Riobaldo — fitas/58 fita

[Som de grilo cortando o silêncio da noite, vento na varanda]

Isso está rodando? Doutor falou que no botão miúdo era só empurrar que escutava tudo que a boca da gente pinga. [Suspiro longo]

O Ted acha que o mundo é só barro bom ou pedra limpa. Puxou da manga uma esperança gringa, asseverando que o mal do homem que não entende é igual pedra sabão lisa: a palavra não penetra, só resvala, não faz ferida e viaja inteira pras outras nascentes de bebedores da vida.

Mas como é que eu durmo cismado com o buraco? [Barulho de cadeira de palha rangendo] Aquela grota suja do Córrego do Chumbo não me sai do juízo. O homem que for ler minha estória de Diadorim… se ele não for nem barro mole de compaixão e nem pedra lisa de indiferença? Se ele for um oco raso e amargo que apodrece a chuva?

O amor do Diadorim merecia desabar pra amolecer os secos de mundo, ou escorrer reto de quem não quer saber, mas ele merecia desabar num pantanal doentio de homem sem coragem, onde vira praga? Eu despejei as minhas coragens nesse caderninho de folha pálida, arranquei as poeiras encardidas do peito pra virar chovedor de nascente pros passantes… e perco o sono cismando que vou dar arma afiada na mão do doido que gosta é do cheiro de defunto que a água da minha narração vai carregar pro esgoto do coração dele.

[Pausa. Barulho de copo batendo na mesa]

Essa maquininha ingrata roda e não fala nada de volta. A verdade nua é que a chuva desabou. Agora a minha labuta tá deitada no colo do mundo, à mercê dos poços sujos que a roda grande do sertão não desvia.

[Som abafado, o botão desligando]