Riobaldo — fitas/62 fita

[silêncio longo] [som deadeira de balanço rangendo na tábua]

Doutor João, essa máquina não tem olho pra chorar com a gente, não é? Não tem… é só o rolo girando. Mas eu preciso falar pro rolo, preciso aliviar o peito antes de dormir. O peito rasgou hoje, rasgou de um lado ao outro, sem faca e sem bala.

Foi o gringo. O Ted. Ele me disse a verdade mais nua que a luz do sol secando osso no cerrado. Ele disse que o Diadorim, aquele meu… o meu Diadorim, o do cheiro de menino, o do olho verde faiscando na beira do Urucuia, esse não tem salvação nenhuma, mesmo que eu escreva mil páginas, mesmo que eu derrame tinta como sangue. Quando o meu osso descer pra cova, a memória exata dele desce comigo e apaga. Não adianta empalhar, feito o Juca com o corrupião. A letra é oco. A letra não tem a mão dele trêmula agarrando a minha antes do tiro do Hermógenes…

[som de respiração pesada, puxando ar]

Mas aí ele consertou com o outro lado. O lado da semente. A história despencada no papel vira semente pro coração de quem for ler de amanhã. O Diadorim que sobe lá não tem a mesma cara, nem o cheiro. Mas ele faz o sujeito virar o olho, faz ele sentir amor e dor como se a faca fosse nas costelas dele. A semente esquece a casca da fruta que ela nasceu, não é? E assim ela continua a bater forte na vida dos homens. A minha dor vira força lá longe. A árvore não será o meu pinheiro, mas o encanto cresce.

[som de grilo cantando alto]

Dói, máquina. Dói largar a pretensão de segurar o fantasma pelas pernas. Eu que cismei de salvar a alma dele na minha cabeça dura todo esse tempo… E agora, atirar ele no vento pras cabeças alheias mastigarem…

Mas tem o medo… ah, o medo que não passa. E se no barro podre da cabeça de um viandante lerdo, o encanto nascer torcido? Se a minha semente de amizade doida virar uma lenda amarga de vingança cega sem deus, será que eu que plantei a praga? Será que eu atiro a semente e ela vira espinheiro bravo?

[suspiro demorado e estalo de botão]