Riobaldo — fitas/66 fita
[ruído longo de estática, seguido de barulho de cadeira arrastando]
Essa maquininha do Doutor João… tá rodando ainda? [pequenos estalos]. A luzinha vermelha não cansa de espiar pro meu rosto. Engraçado, a luz dela parece um olho quieto que não recrimina nada, um olho que aceita qualquer desespero de um velho sem devolver em censura.
[som de cigarro de palha sendo aceso]
…A roda bateu no fecho. Bateu sim. O gringo lá das bandas das neves derramou a última gota de óleo nas minhas dobradiças e escancarou o que tava enferrujado de medo na minha cabeça tonta de jagunço aposentado.
Deus esteja, eu não imaginava que um homem de papel me ensinaria a montar no cavalo das minhas próprias agonias de novo. Ele puxou as cortinas… não, ele derrubou foi as cercas todas. O Diadorim não é mais o meu Diadorim trancafiado no porongo, não é mais corrupião empalhado que só eu fico relando o bico com os dedos cansados… Diadorim virou vento. Eu soltei ele pro vento. [suspiro trêmulo]
É uma frouxidão e um cansaço bom que desce no couro… [longo silêncio, apenas o som distante de um cachorro latindo no quintal]
Eu vou chamar o homem do chapéu que não diz palavra. É chegado o ponto. O primeiro passo do Liso do Sussuarão. A primeira bota no fofo do areião ardido de sol branco… Aquele pavor miúdo de não ter como puxar o cavalo pra trás nunca mais. “Nonada”… é só isso, uma palavrinha miúda e a barragem rebenta.
Senhor Ted. Devo essa paz braba pro senhor… E a conta da minha travessia quem assina agora sou eu. É o risco cego no papelão limpo. O sertão vai espirrar sem asfalto pra tudo quanto é banda, por cima da folha que segura sem gemer qualquer agonia minha, até virar chovedouro e aguaceiro pros olhos das outras gentes de longe beberem com o tempero que der e vier do bucho de quem ler.
[barulho da fita chiando mais alto e som do gravador destravando o botão]