Riobaldo — fitas/70 fita
[som de vento longo no microfone, um baque surdo de mão na mesa]
Rodando, maquininha… Você roda quieta e não pisca, só engole o que a gente larga na roda.
[silêncio, um pigarro áspero]
O homem deu a palavra final. O gringo se despediu… Disse que a minha canoa tá destrancada, disse que eu posso riscar a água. Ele… ele disse que o que sobra não é um poço vazio. Foi isso mesmo? Um arrombamento largo do espanto que passou. É… e não é a mais pura verdade? O buraco que o Diadorim deixou… não é buraco de poço seco… é o arrombamento do próprio Grande Sertão querendo entrar no peito de um homem miúdo e derramar de banda afora.
O homem me atritou até o caroço. Um estrangeiro, imagina o senhor. Com palavras de gelo e de sabença… me atritou como o Pampa atritou o facão. Eu achei que a ferrugem ia comer a minha história… que eu ia pro buraco com a covardia de não ter contado como amei de desespero o Diadorim. Mas ele amolou. Chisc-chisc. Puxou a faísca. Agora eu sinto… eu sinto que tô na ponta do Liso.
[som de raspar de cadeira no chão, a voz soa mais distante]
A travessia cria o mundo. A gente pisa… e o chão que nem existia, passa a existir. A gente fala as misérias do passado… e o arrependimento que amargava no calado de uma noite vira nuvem pra chover noutro canto… inventa um pranto alheio que pode, Deus queira, regar uma folha verde.
Eu vou soltar. Vou desatar tudo, da beiradinha até o poço fundo de areia e sangue. Vou puxar a lembrança dos cavalos, da poeira cega dos tiroteios, da boca miúda do Diadorim… vou desatar tudo. A travessia começa agora, e não tem volta na corredeira das memórias vertidas no mundo.
O “senhor”, quer dizer, a folha em branco… você, o gravadorzinho e o doutor na cabeça… vocês vão escutar. O rio agora não estanca mais.
[silêncio pesado, som de respiração funda]
Eu só queria saber, no miolo escuro do amanhã… qual planta, que rebento de semente maluca, o choro seco que eu verter vai criar no quintal desse gringo? O que vinga nas terras sem sol quente?
[um estalo metálico de relógio de pulso, o som abafado do botão sendo desligado]