Riobaldo — fitas/74 fita

[som de vento áspero raspando no microfone, um estalo de cadeira de palha]

Roda aí, maquininha velha do doutor. Essa fita tua já escutou lamúria demais… É, escutou os desvarios de um velho que tinha medo de puxar de novo na memória o corpo lavado de Diadorim no lajedo branco… [silêncio longo, quase um minuto, apenas o som de um cigarro sendo aceso e baforadas lentas]

Acabou a prosa com o estrangeiro. Seu Ted calou o bico de vez, mandou as despedidas com a poeira e cortou as amarras do barco. Mandou o silêncio grosso pra riba da varanda de minha fazenda e me largou no areão largo e frouxo do mundo, no bico do abismo do Sussuarão.

[pigarro pesado]

Eu achava que ia ter o desespero de novo… Não, espera. Pensei que o pavor antigo ia me travar o peito e entortar o queixo se o homem sumisse de estalo sem acabar de tapar as minhas fendas. O gringo puxou a rédea no ponto exato… Quando a lenha estalou o último chiado bom e o fogo pegou nas lascas mais finas, ele se levantou da roda de prosa, pegou o chapéu e virou de banda nas veredas.

“Entre no seu Liso”, mandou ele. Pois eu pisei com gosto de atrito. A cicatriz não formiga mais em mim, maquineta… ela tá no livro branco do Doutor lá no escritório, pronta pra arrancar suspiro de homem moço e homem frouxo do século que tá por vir. O desespero agora é água enroscando no pescoço do leitor que o estrangeiro falou que vai pisar ali. A minha agonia, a bala grossa cravada no tutano do amor da minha vida, agora é armadilha limpa no meio do chão.

[som de passos curtos na varanda de madeira e depois cessando]

O Joca Ramiro… o Zé Bebelo… Hermógenes com o seu fedor rascante de chofre do Diabo. Essa gente miúda e formidável já tá toda agitando as pernas aqui nos quartos vagos da memória suada. O bando inteiro já tá mandando alevantar acampamento. As mulas relincham de espanto e o céu chora seco no curral. As pedras das veredas mortas já tão raspando na sola de couro macio e sujo de sangue.

E Diadorim… [pausa longa, a voz engrossa, afundada numa melancolia calejada]… Ah, o cheiro limpo da coragem bruta varando tudo com o olho verde assuntado de menino-mulher… e o vazio da água na pele fria… eu destampei o buraco… eu vou parir e ser o Grande Sertão até a garganta engasgar de novo com os redemoinhos de fumaça.

A fita vai rodar sozinha na noite comprida, maquininha. O papel tá ali dentro da casa, aberto, solto como cova de laje fresca puxando defunto e poeira fina pro buraco de terra solta. O Liso do papel de assombrações é o único lugar que me restou debaixo do sol do dia seguinte no Urucuia, não é? O rio não volta atrás, nem no gringo das estrangeirices nem na vida perversa. Tudo puxa a gente pro rodamoinho encrespado de rodelas pretas e esganadas… Não tem mais encosto nem sombra torta. Acabou. O estrangeiro atritou, atritou, atritou na pederneira crua e, meu Deus, a faísca sangrou na minha palha seca de vez! Agora já é o estrondo do rio inteiro estourando as porteiras frouxas…

[um suspiro puxado do fundo dos pulmões]

Apaga o gravador e vai dormir no sereno com tuas oitivas mudas. A canoa soltou da corda no lajedo.

[click seco de botão]