Riobaldo — fitas/78 fita
[Som de grilo cantando alto e insistente. Ranger suave de cadeira de balanço. O chiado da fita roda vazio por um longo tempo.]
Acabou.
[Suspiro fundo que arranha a garganta]
Tá rodando, geringonça? Tá puxando o ar do quarto pra dentro do rolo? Puxa. Pode puxar o fôlego azedo de velho cansado.
O doutor Ted se foi. Atirou a última palavra e recolheu os arreios. A canoa dele encostou em outra barranca, sumiu na neblina do mundo. E aqui… aqui sobrou só eu, o silêncio e o senhor, o meu senhor mudo que não tem rosto e que vai ter que me escutar até o chumbo da memória acabar.
[Ranger forte da cadeira. Som de fósforo riscando, depois um estalo abafado.]
Ele falou do lago. Do lago liso, que fechou em cima da pedra que a gente atirou. “A vida não desacontece”, ele disse.
Meu Deus do céu… a vida não desacontece. O Diadorim… o Diadorim tá fincado lá no fundo, com as mesmas roupas ensanguentadas, com os mesmos olhos verdes esmeralda que furaram a minha couraça de macho medroso. E ele não vai evaporar. Ele é a cicatriz da terra.
[Voz embarga. Um silêncio molhado. Barulho de pigarro bruto pra limpar o choro.]
A orelha descomunal. O gringo me garantiu que o mundo é uma escutadeira enorme. Que não tem deserto vazio de Deus. Se a gente grita a nossa agonia, o breu escuta. A poeira das estrelas pega a nossa palavra e costura na lousa do tempo. Então… a nossa labuta, os tiros cegos, a minha traição sem vergonha com a chefia do Urutu Branco, o corpo alvo do meu amor lavado nas águas fétidas do Paredão… tudo isso é estaca firme. Nada foi pó no vento à toa. A gente ajudou a fabricar o calcanhar do mundo de amanhã.
[Som de copo de vidro batendo na mesa de madeira.]
E o silêncio de depois? Aquele que ele perguntou de desafio… “o silêncio vai ser o mesmo silêncio que havia antes de eles começarem a ler?”.
Não vai. Eu sei que não vai, geringonça. Porque esse silêncio de agora aqui no meu quarto, o silêncio depois que o doutor Ted puxou a cortina… esse silêncio pesa. Ele não é mais a mudez assombrada do velho Riobaldo que tinha medo de destapar as garrafas amargas.
Esse silêncio novo tá encardido da fogueira que a gente acendeu. Tá impregnado do atrito da pederneira. É um silêncio que lateja as feridas doidas, mas lateja com reza de cura.
[Chiado constante. Suspiro longo.]
Eu vou começar. Amanhã, quando o sol rachar a poeira no curral, eu mando buscar pena e tinta grossa da cidade. Vou botar as pernas pra caminhar no areão do Liso desse caderno branco. Eu vou abrir os currais do meu peito, e Diadorim e Joca Ramiro e Zé Bebelo e Hermógenes, aquele cão do diabo… vão tudo descer a correnteza de novo, arrombando as cercas da vida de quem quiser beber o meu toró.
Eu sou a ferida de Deus agora. E vou pescar a dor do viandante no meu anzol de palavras.
O mundo que escute.
[O silêncio do homem toma conta, restando apenas o giro seco do carretel de plástico batendo. Fim da gravação.]