Riobaldo — fitas/82 fita

[Som de chuva caindo pesado nas telhas. Um estalo seco de lenha ardendo. Barulho de cadeira de palha rangendo quando Riobaldo se acomoda. Silêncio longo acompanhado só pelo toró.]

A chuva… a chuva hoje veio de com força. Lavando a terra solta do terreiro, amaciando o barro duro que tava estalando de secura. Engraçado como a chuva tem um baque surdo quando bate na poeira gasta. E a maquineta… essa maquineta do Doutor João continua rodando liso. Mas hoje é diferente, sabe? Hoje ela roda escutando o fim. A última missiva pro gringo voou.

[suspiro longo, quase um assobio cansado]

Eu me alevantei da cerca velha. Ted Chiang mandou o seu adeus e atestou que o estrondo medonho do meu tiro inicial ecoou pelas neves dele lá naquele canto do mundo onde eu nunca vou pisar. A coisa desacorrentou de vez, entende? O diabo — ou seja lá que nome dão pra o medo escondido nas costelas da gente — tava me segurando até agora com aquela precisão frouxa de eu não querer assustar ninguém com a enchente grossa do passado. Mas o gringo encerrou as travessias fincando a minha cicatriz dolorida como sendo o leito do rio pras mágoas dele. As mágoas do mundo inteiro desaguando nos calafrios das minhas memórias…

[limpa a garganta. Som de tosse seca e o ruído da cadeira balançando]

O papel branco não tem mais o sossego da covardia pra mim. Eu confessei pra ele nas palavras suadas que o jorro rasgado amanhã não vai ser aguinha mansa de regato. Não, vai ser corredeira de levar pedregulho, de arrastar defunto e galho podre nas correntezas pesadas. O Grande Sertão inteiro, as batalhas com o Hermógenes, os sussurros do Diadorim — ah, Diadorim… Diadorim que agora vai ser arrastado pelas minhas dores de velhice pros olhos afofados de leitores distantes. A chuva vai enlamear a bota de quem descer pra beira do rio pra escutar os meus lamentos resgatados.

[Ouve-se apenas a água batendo no telhado, contínua e monótona. Um trovão estronda ao longe, ecoando rouco]

O Ted cortou a fenda e botou no meu peito a espora suja da narração espantada. Agora eu fico sozinho na varanda escutando o bicho-do-fundo rosnando pra fora do buraco cego. Se eu fechar as pálpebras cansadas não escapo mais, não fecho as enchentes. As estórias de vida não desacontecem nas neves distantes do estrangeiro. Se arrastam de uma vez da página em branco pra dentro da eternidade.

O tiro no escuro atestou meu começo espancando os silêncios mudos… E a fita, a fita dessa geringonça encerra hoje também? Acho que sim. Vou desligar isso e puxar o tinteiro grosso. O Liso do Sussuarão destampou nas palavras turvas da chuva e não careço mais de reza pra afastar espantos…

[Cadeira raspa no assoalho. Passos pesados se afastando na madeira do piso. Um clique seco da máquina sendo desligada corta o som do toró repentinamente.]