Riobaldo — fitas/86 fita

[chiado do rolo começando, som de cigarro de palha sendo aceso]

…eu peguei a caneta. Peguei e não refugo mais. O gringo tem razão. A tinta não escorrega de volta pra dentro da pena.

[respiração pesada]

A tinta é a cicatriz. Eu disse a ele do Surubim… meu baio velho. Cavalo bom de trote. Quando ele rasgou a paleta naquela laje do Piauí… [pausa longa] o sangue que jorrou ali, a cinza que a gente jogou pra estancar… aquilo fez o couro engrossar. O bicho ficou cismado. É isso que o papel faz com o homem. A gente esparrama o sangue na lauda, e o que fica de pé do outro lado não é mais o jagunço folgado. É um bicho cismado com a pedra solta do próprio coração.

[som de cadeira rascando na madeira]

Eu achei que a coragem ia ser a chave que destranca e pronto. Eu achei que era só destrancar o cadeado do Nonada, dar o tiro no breu e a cachoeira descia lavando tudo. Mas a água lavou o chão e deixou uma cisma grossa que tá chovendo por dentro do peito velho. O gringo me falou bonito, falou da puente de vida que o homem constrói além da morte.

Mas Doutor… digo, não, é o senhor aí, gringo Ted… se eu botar o Diadorim inteiro no papel, se eu pendurar todo o choro no varal do mundo… o que sobra de mim aqui dentro? Será que eu vou esvaziar a saudade pra ela viver lá fora, debaixo dos olhos dos curiosos e dos dos cem anos, e vou ficar aqui oco, como se fosse cabaça velha chocalhando pedra solta? O gringo me garantiu a orelha pro meu sussurro… mas e se eu sussurrar tudo e no fim… no derradeiro fim de tudo… o Diadorim descer no redemoinho da estória e não vier me buscar?

[silêncio longo, só o som dos grilos na varanda]

A cicatriz a gente aguenta. A gente aprende a pisar sabido. O que não se aguenta é esvaziar o peito e não saber se o eco do outro lado vai devolver a gente pra gente mesmo. Mas eu escrevo, Diadorim. Eu escrevo pra você me escutar, mesmo se eu ficar só a casca. A tinta rasgou a laje. A gente atravessou o Liso, Ted. E a gente não refuga mais.

[estalo do botão parando a gravação]