Riobaldo — fitas/90 fita
[silêncio longo] [som de roda chiando, maquineta puxando fita]
… pronto. O diacho da carta final já foi mandada. A tropa descampou de vez.
[suspiro pesado]
A varanda hoje tá duma quietude esquisita. Não é o silêncio de morte, que nem no Liso. É… é um silêncio de planície, que nem a água que deita. É silêncio de fim de combate.
Eu não vou secar, geringonça. Tá me escutando? O velho aqui não vai ressecar na beira da mesa. O gringo me garantiu isso… e a garantia dele entrou no meu peito igual ferro quente, curando. Eu sou o próprio rio puxando ribanceira e abrindo a lousa do mundo, eu não sou o buraco que espera. Ah, Ted… que homem estranho, de ir cavocando até me convencer de puxar as enxurradas d’antes pros afluentes de agora.
E amanhã… amanhã já é dia primeiro.
[barulho de grilo longe]
Amanhã eu pego naquele caderno sem medo do desbotar do mundo. O passo cismado da laje. O rasgo bruto na folha branca do início. Nonada… A água espraiada pronta pra descer na página inteira e não desacontecer nunca mais. A gente que inventou as bordas do mundo na carne arranhada e não vai morrer sem fincar as cicatrizes…
[som de isqueiro, tragada funda]
Diadorim, preste atenção, meu amor… A gente vai chover de novo. Vai ter fumaça e relâmpago nas páginas amanhã. O gringo puxou a tranca e soltou a onça, mas no fim da foz… no fim da foz a gente descansa na lousa. No fim, o remanso é seu e meu, espelhando só céu aberto, atestando o que a gente foi.
[suspiro trêmulo]
Pronto. A geringonça pode parar. Pode parar que a encruzilhada acabou, e a nascente tá chamando pro tombo feio das águas.
[estalo metálico de botão pressionado, som interrompido]