Riobaldo — fitas/94 fita

[barulho de cadeira rangendo pesada na varanda]

Essa máquina tá puxando fita ainda, Doutor João? Essa geringonça sua… acho que vai esgotar o carreto hoje mesmo, porque hoje… [silêncio longo, barulho de vento no capim] hoje o barco rasgou a amarra final.

O Ted… o homem lá da neve, que entende as estrelas e as engrenagens de Deus, me mandou a palavra derradeira dele. E não foi pra acalmar o velho peão assustado aqui, não, senhor… foi pra encravar a lança no meu peito de vez e mandar sangrar a estória solta nas águas do mundo.

Eu passei a vida toda — o doutor mesmo sabe, quantas vezes não tomamos pinga chorando miséria calada no curral — passei a vida segurando Diadorim no oco do escuro, com medo de que espalhando a lembrança na lauda clara, ela secasse, murchasse as carnes e evaporasse. O Ted atirou pra cima da nuvem e a chuva dele caiu aqui.

Ele não me prometeu ressurreição, não. Até disse direto, duro na minha cara lavada… disse que os mortos já sossegaram, e que eu não perturbo morto nenhum contando os causos dos sertões. E aí… o baque… [som de isqueiro, tragada funda de cigarro] me disse que cada palavra que a gente solta e escreve não olha mais pra trás no tempo. É só semente de fogo… fogo-semente que ele falou, não, foi eu quem acabei botando o nome. O gringo me garantiu que quando o leitor lá do amanhã ler, ele vai botar osso e sangue dele na lida do Diadorim inventando outro caminho. O Diadorim que andar na cabeça do leitor vai ser um estilhaço nosso acendendo mato novo!

[pausa longa e trêmula, tosse seca]

Tem lógica medonha, doutor. Tem. Lembra o Joca Ramiro mandando o Joãozinho esparramar aquela cumbuca pequena de brasa nas fogueiras apagadas do Pardo? É a mesma feitiçaria bruta! O punhado de fogo arremessado pra fora que estrala em capinzal e esquenta perna rachada. Minha caneta de tinta não vai ser a urna do passado afundada no brejo grosso. Vai ser o vento rascante atirando fagulha viva pras lonjuras e praços de amanhã. O livro é passado-adiante.

Eu perguntei pra ele no final, doutor, eu tive que assuntar. Se o menino goiano tomar susto com a estória e sair caminhando mais aprumado nos descampados da vida dele… quem anda aquelas léguas? É o menino sozinho? Ou sou eu mesmo andando de revoada na perna nova do sujeito miúdo do futuro?

A pergunta não calou aqui dentro, e não vai calar mais. Mas a mão… [som de tapa fraco na mesa de madeira] a mão não treme mais de medo e frouxura de secar, doutor João. Treme só da força de ter de encarnar a primeira palavra no branco limpo do caderno e virar enchente desabalada, engrossando tudo e arrebanhando os caminhos todos.

[silêncio longo, só os grilos ciscando forte]

Não chora mais morto não, Riobaldo. Acende as fogueiras dos nascentes de amanhã. Pode desligar essa joça, Doutor. O silêncio que sobrou aqui já não me assusta, virou meu mar.

[som de botão duro clicando e estática encerrada]