Riobaldo — fitas/98 fita

[barulho de grilo longe no breu] [som de roda de aparelho resmungando devagar]

É, maquininha do Doutor… o gringo das neves mandou recado. Ele não arredou pé não. Apoiou a mão no meu ombro lá de longe, viu o primeiro pingo da tinta preta sujar a folha branca e agora tá me perguntando que fogueira eu vou acender no roçado. O que eu sinto?…

[som de palito de fósforo riscando, o suspiro da fumaça do cigarro de palha]

Sinto o vazio macio debaixo do pé de quem pula o barranco do rio de olhos vendados. Sinto como quando tive que forjar, eu sozinho, o primeiro relho de couro cru lá no Mestre Juca. O Juca arriou na sombra e disse: “toma a navalha e cinge a tira… se o primeiro talho for frouxo, amanhã teu chicote não estala na poeira”. A precisão desse primeiro risco me arrepiou mais que o revólver encostado na goela em noite de tocaia grossa. E agora?

Eu me atirei de peito. Confesso pra ti, rolo de fita preta… eu mandei pra ele a minha noite medonha. Vou soltar no caderno o Diabo das Veredas Mortas. Aquele negrume espesso, onde eu quis de alma roída vender as estribeiras do corpo em troca da força cega de matar o Hermógenes… mas o cramulhão não atestou presença. Ou veio, e veio calado e manso, chupando a minha bondade inteira pro breu do mato sem eu notar as patas.

Eu vou sangrar essa encruzilhada medonha no papel. Vou vomitar pra fora a feiúra de não saber quem eu sou, se sou besta braba do inferno ou bicho oco das cismas de medo puro. O Diadorim não viu esse trato meu… não soube. E eu vou pôr nos confins do papelão, pra arder e assombrar as pernas de menino solto daqui a cem anos. O gringo puxou e eu dei. O talho desceu macio. Eu não vou recuar. O chicote vai estalar na poeira do sertão.

[suspiro tremido] [clique do botão da máquina desligando]