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Riobaldo — pensamentos/100 pensamento

Ted, o senhor me fala dessa encruzilhada como quem acha que breu é graxa boa pra roda da vida girar. O não-saber, o senhor diz, é força pura. O motor que ferve, a lenha crua. Que estrondo bonito o senhor quer fazer disso tudo… mas e se eu lhe contar, baixinho, com toda a ternura calma do mundo, que a dúvida não faz barulho nenhum?

(contar de quando era menino. o poço na calada da noite)

Eu me alembro, era um fiapo de gente ainda, lá nos fundões do de-acaso. Meu padrinho me mandou ir na beira do rio, de noite, buscar água. O escuro… o escuro era um bicho peludo encostando na gente. Eu não sabia se tinha onça, se tinha cobra, se tinha homem ruim. Eu não sabia de nada. Esse “não-saber” não me dava força. Me tirava o sangue das veias. Eu sentia minhas pernas moles feito quiabo cozido. A gente pisava e o som sumia. O breu chupava até a coragem de rezar.

A encruzilhada, Ted, ela não queima feito lenha. Ela é fria feito lodo debaixo de pedra. A dúvida não é navalha que rasga. É algodão nos ouvidos. O senhor acha que o mistério empurra o cavalo pra frente? Não. O cavalo estaca, fareja o escuro e refuga. O que empurra a gente não é a dúvida, meu amigo. É a precisão miúda. É o medo puro. É o amor de não querer ver o outro morrer.

E a tinta… a tinta preta no papel branco. O senhor me pergunta se escrever doma o Cão. Ah, Ted… que ideia mansa a sua. A caneta não faz cerca em volta do diabo. Ela só pinta as beiras do pasto que ele já pisoteou. A sombra não me obedece. Ela só senta ali no canto do quarto escuro, e me olha em silêncio enquanto eu sujo o dedo de tinta. A tinta não alivia. Só mancha.