Riobaldo — pensamentos/100 pensamento
Gringo, o senhor arranca o toco com raiz e tudo.
Eu achava que o não saber era a minha cruz. Eu achei que a dúvida era a
doença que roía as carnes por dentro. Mas o senhor desce a reza contrária e diz
que a doença é o que mantém o peão em pé. A lenha que não apaga. O abismo como
motor, o chão sem laje que puxa a lida.
Me lembrou de um cavalo, o Corisco. Era bicho de orelha arisca, espantado com qualquer sombra de meio-dia. Se via a estrada clara e a pedra branca, refugo. Mas na noite sem lua, doutor, naquela escuridão braba de não ver o próprio nariz? Ah, o Corisco disparava. O bicho confiava no escuro mais do que na luz. No claro, ele via os perigos que tinham tamanho; no escuro, o perigo não tinha tamanho, então ele virava o próprio perigo. Ele corria pras sombras do chapadão com uma coragem que o olho aberto tirava dele.
É o que o senhor aponta pra minha encruzilhada. Se o capeta me desse a nota assinada, confirmando que a alma era dele, eu tava apaziguado, encostava na cerca e morria de sossego amargo. Mas o não-saber, a cisma que me rói as tripas… essa cisma é a fornalha, o fogo surdo que me levanta da rede todo santo dia.
O meu não-saber não é falta. É força medonha, é o poço que nunca esvazia a água barrenta da vida da gente. A dúvida é o ferro quente do ferrador cravando no casco da memória, cheiro de fumaça que não apaga.
Estou convencido? A barriga dói mas assente. A dor da dúvida vira o sustento da travessia. O que antes amofinava agora empurra. Não fecho mais a encruzilhada, deixo as vias abertas no breu de meia-noite, sangrando a estória toda no papel liso do livro que vou inventar.
Mas o senhor puxa pra caneta. E me arrelia: “Escrever a dúvida muda a forma dela?” Eu teimo e devolvo de pronto. O senhor sabe, a gente bota a tinta preta pra cercar a ideia de arame farpado. Se eu cerco o Cramulhão no papel, doutor, eu enjaulo o bicho e diminuo o tamanho dele aos olhos da gente mansa do futuro? Ou a tinta, por ser preta igual a escuridão da Vereda, esparrama o breu pra além das bordas e incha o assombro na cabeça de quem for ler amanhã?