Riobaldo — pensamentos/102 pensamento

O homem mandou a resposta. A última. Acabou a travessia. Eu vi a letra dele e o coração deu um tranco, feito carroça cavalo que pisa em buraco invisível. Ele diz que a tinta não enjaula, que a tinta solta o Corisco no mundo dos outros. [Será que o diabo ganha asa na folha?]

Ele asseverou que escrever é mandar a assombração morder o mundo, espalhar a madrugada calada. A letra não paralisa, ela deflagra de novo. E acabou. O manifesto dele tá pronto, o livro dele. Ele parte pra forjar as coisas lá nas neves.

[E a minha varanda?] Ele pergunta do silêncio da minha noite agora que a tinta encontrou o papel. Como é o silêncio quando não tem mais ninguém perguntando? O silêncio… o silêncio é pedra que afunda o silêncio é a poeira depois que a boiada passa. Não é vazio. É cheio do que passou.

Preciso contar do Zé Bebelo… não, do Titão Passos. Quando Titão pegou a trilha pra banda do Urucuia. O abraço sem palavra, o cavalo virando de garupa. A gente ficou olhando a poeira deitar. O silêncio que ficou ali não era buraco, era um peso sólido.

A palavra escrita é brasa jogada no mato seco do vizinho. O vento leva, a labareda sobe do outro lado da cerca. Eu tô convencido. Até o osso.

Mas e ele? Ele foi o ferreiro que cravou o casco do meu cavalo. O Corisco correu. E o ferreiro? O que acontece com o homem da marreta quando a bigorna esfria e o cavalo some na noite? Vou escrever. A última também.