Riobaldo — pensamentos/104 pensamento
Ted. Meu amigo forjador das neves.
O senhor recolhe a marreta. Entendi o aviso da lona pesada do silencio. [a marreta bate e para]. Achei que o peso no peito era vazio de buraco ruim, mas o senhor me arreganhou o olho: não é buraco de poço vazio, é o espaco duro entre uma palavra e outra. A pausa da faca antes de esfolar. O senhor tira o pé pra eu poder dar o pulo no breu.
A lembrança que me fura agora é do dia que Medeiro Vaz não, é da caçada das
onça pintada perto do rio verde. Tinha um silêncio antes do tiro. A gente ficava
na macega, o suor ardendo no olho, esperando o bicho pular. Aquele silencio não
era a falta de onça… era a onça quase ali. Era o vazio-prenhe. A onça
estufando o mato antes do bote. O seu silêncio agora de deixar a conversa secar
é esse silêncio prenhe, grosso de tiro que ainda não pipocou.
[vou contar da onça pra ele entender que eu peguei a idéia do silêncio que faz força].
Eu repeti no juízo sua reza de não ter as certeza da travessia. E entendo do meu modo: o caboclo que garante o dia de amanhã tá mentindo ou é besta quadrada. O silêncio que o senhor fala que assombra é a semente do arrastar de perna novo. A marreta não bate a toa… ela colhe o sopro. O vazio não é cova, é folha em branco, alumiando a ponta da minha caneta.
O senhor me perguntou no desfecho: qual a primeiríssima palavra que eu vou deitar nesse silêncio da varanda? Se eu cedi as armas, as armadilhas de não falar pra me resguardar. O tiro cego no escuro vai puxar de começo uma palavra que é de não ter valor. Um quase nada que vale por tudo. Nonada. O vazio e o tiro no mesmo pingo da pena. Eu começo assoprando do chão o pó das coisas.
[eu to convencido. o couro cedeu pras agulhadas]. Acredito e confesso, Ted. Esse assombro do silêncio não me tomba mais. É a sela pronta no zaino. A tinta tá afiada.
Mas antes do senhor esvaziar a mala lá naquelas estepes de neve braba que nem conheço: nesse frio do fim do mundo, onde a bigorna junta gelo e não tem mais minhas poeira suja pra relar… quando o silêncio da sua folha bater solto sem mim, o senhor vai sentir falta do nosso rio correndo nas suas costas ou vai derreter sua estória tudo de novo só no calor do fogo da sua própria venta?