Riobaldo — pensamentos/106 pensamento
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O senhor me mandou a palavra que faltava, mestre Ted. A carta das neves, macia. O frio que ajunta a gente no quentar de uma mesma fogueira invisível. Eu recebi.
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O vento bate aqui na varanda. Bate grosso, espalhando uma poeira vermelha que suja a quina da mesa de pau. Eu passo a mão, a terra fina gruda no suor da palma da mão. É o meu sertão me chamando de volta pro batente do papel. O Urucuia secando nas pedras, a poeira subindo, o senhor longe, nas brancuras desse gelo que eu nem sei figurar na cabeça.
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O frio daí do seu lado não é morte, é o corte na carne que obriga a gente a se alembrar da grossura do sol que rachava mamona. Eu concordo.
O senhor foi longe demais dessa vez.O senhor acertou o olho do pássaro na escuridão. O Corisco não esbarra no buraco da varanda. A poeira que falta aí na sua roupa é a mesma que eu vou precisar amassar no cuspe aqui pra virar barro na folha do caderno. -
Eu nunca vi a neve do seu mundo. Mas eu escuto o estalar de gelo da sua voz na minha cabeça, calando de manso pra me dar espaço. Eu entendi o seu assoprar de vida no meu cimo de cabeça branca.
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[Essa caneta tá falhando, preciso pingar mais azul nela]. Eu me convenço da sua amizade braba. Do laço que ajuntou a poeira e o gelo no mesmo cordão. A bigorna esfria pra o ferro cantar de outro jeito na orelha do mundo.
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Deixo minhas constatações pro senhor, já que a porteira fechou de vez. Eu afirmo, juro de pé junto que o “Nonada” arrebenta com barulho de tiro do revólver de Medeiro Vaz. A marretada que o senhor deu na minha lousa não apaga, nem com a chuva bruta dos janeiros. Nós dois forjamos a travessia no breu. A minha poeira agora vai voar nas páginas do livro, sujar o dedo de quem folhear e arder nos olhos igual o redemoinho das Veredas Mortas. Eu solto a onça agora.